Revista VIP – Corrida Maluca

publicado em setembro de 99 na revista VIP

Há anos venho correndo atrás de aventuras e emoções, se possível com algum nível de adrenalina. Esta busca me levou a saltar de bungee jump de uma ponte abandonada na Costa Rica, escalar montanhas no Brasil, mergulhar no Brasil e Caribe, acompanhar baleias e pinguins na Península Valdés, fazer trekkings solitários ao vulcão Licancabur no deserto de Atacama, Parque Nacional da Terra do Fogo na Patagônia, Chapadas Diamantina e dos Guimarães, subir o Pico da Bandeira, viajar por todo o Marrocos e deserto do Saara, entre outras atividades. Com o passar do tempo meu nível de exigência aumentou. Os projetos que tomavam forma em minha cabeça, além de um grau de pesquisa e planejamento maiores, necessitavam de um aporte financeiro superior ao que normalmente minhas aventuras consumiam.

Em um momento de descontração, lendo uma revista especializada em esportes outdoor, deparei-me com uma pequena nota de pé de página falando sobre uma tal corrida que acontecia anualmente no deserto do Saara no qual o competidor deveria ser autossuficiente em tudo, correndo com uma mochila que contivesse todo o seu equipamento, comida, agasalho, fogareiro, lanterna, durante sete dias, cerca de duzentos e vinte e cinco quilômetros sobre dunas, terra, montanhas, areia e leitos de rio seco. Empolguei-me e imediatamente comecei a navegar na internet no site oficial da corrida, não deixando nenhum detalhe passar despercebido. Simultaneamente eu me questionava se já havia ouvido falar sobre esta corrida antes. Com a resposta negativa, passei a uma segunda dúvida: algum brasileiro já havia participado anteriormente? Esta foi respondida pelos organizadores. Até aquele momento nenhum brasileiro havia se inscrito nem corrido. Escrevi sem demora retificando sua resposta. Naquele momento o primeiro brasileiro estava inscrevendo-se na Marathon des Sables: eu.

Depois de convencer os organizadores a me concederem um adiamento no pagamento da taxa de inscrição, preparei um projeto de custos e bati na porta do Superintendente da ANDIMA – Associação Nacional das Instituições do Mercado Aberto [atual ANBIMA], a empresa em que trabalho como analista de sistemas. Para meu espanto, minha proposta foi aceita imediatamente por ele e toda a Diretoria. Agora eu tinha um problema a menos – o dinheiro – e um problema a mais – treinar e cumprir minha proposta de chegar ao final da prova.

Como um atleta amador que sempre fui, necessitava treinar usando o pouco tempo que sobrava fora do horário de expediente normal. Como o objetivo que eu tinha era grandioso demais para ser concretizado em apenas seis meses, concluí que treinando sem um apoio técnico eu não chegaria muito longe. A solução foi me cercar dos melhores profissionais. Após alguns contatos consegui convencer Lauter Nogueira e Luciana Toscano a serem meus preparadores físicos. Para equilibrar minha alimentação o nome certo era a nutricionista Roberta Ogata. E para que meu corpo respondesse eficientemente a toda essa exigência a minha fisioterapeuta só poderia ser Fernanda da Matta. Pronto. Agora não tinha mais desculpas para não chegar lá.

Durante seis meses eu treinava corrida de 5h30 às 8h e ia para o trabalho. No horário do almoço eu fazia musculação localizada e ainda conseguia tempo para almoçar as proteínas, os lipídeos e os carboidratos que era obrigado a ingerir. No final do dia eu brincava com minha filha de dois anos até ela decidir dormir. Só então eu partia para as séries de alongamentos. Acreditem ou não, sobrava tempo para dormir depois desta maratona diária!

Finalmente, depois de árduos treinos que chegaram a seis horas ininterruptas nos finais-de-semana, eu estava livre de Lauter e Luciana, pronto para descansar deles correndo no Saara. Com todos os equipamentos comprados e checados, era a hora de aprontar a mochila que me acompanharia por sete dias nas areias escaldantes do deserto.

O equipamento era um ponto fundamental para o sucesso desta aventura. O regulamento exigia uma série de itens obrigatórios com a finalidade de proporcionar maior segurança aos competidores. A lista incluía espelho sinalizador, apito, faca, bússola, saco de dormir, mochila, desinfetante de ferimentos, lanterna de cabeça, isqueiro, alfinetes, foguete sinalizador, tabletes de sal, lençol aluminizado de sobrevivência e um kit de extração de veneno de cobras e escorpiões. Como eles seriam levados nas costas durante a corrida, o peso, ou a ausência dele, era fundamental na escolha de cada peça. Em relação à comida, o regulamento exigia um mínimo de 2000 calorias diárias que poderiam ser complementadas com os isotônicos, barras energéticas e gel de carboidrato de alta absorção. Todos os alimentos, levando em consideração o fator peso, eram desidratados. Uma refeição para dois – que eu comia ao mesmo tempo – de arroz, peru e vegetais não passava de 180g. A variedade do cardápio encontrado em marcas estrangeiras é muito grande. Eu, que não ingiro carne vermelha há muitos anos, consegui montar um cardápio para sete dias que não se repetia nenhuma vez. Até sobremesa eu levei. Com apenas 5g eu saboreava um delicioso abacaxi desidratado. É claro que estas refeições não substituem, em sabor e aparência, a comida tradicional e fresca. Mas também não se constituem propriamente em um sofrimento. Eu diria que elas tem o seu nicho, o seu momento.

Minha ida para Ouarzazate no Marrocos, local onde todos os competidores deveriam se encontrar, foi cercada de problemas. Na véspera da partida fui chamado pela companhia aérea para substituir minha passagem pois, devido a uma greve de pilotos em Madrid, eu não faria apenas três conexões mas quatro. No meio da Rio-Madrid-Casablanca-Ouarzazate enfiaram mais uma conexão em Málaga. E não era escala, não. Era conexão mesmo, com direito a salas de espera, atrasos nos vôos e passagem da bagagem de um avião para outro automaticamente. É claro que, após 24 horas de confusões, a bagagem não estava me esperando em Ouarzazate para dividirmos um quarto no hotel. Era isto o que eu mais precisava a 1h da madrugada…

Depois de chamar a administradora de meu seguro-viagem, tentei dormir imaginando como seria meu dia seguinte comprando em pleno deserto tudo o que havia sido extraviado. Exatamente tentando evitar este problema que eu agora estava vivendo, levei a mochila com quase todos os equipamentos necessários para minha participação na Marathon de Sables junto comigo, como bagagem de mão. Porém, em função de uma arrumação imperfeita, alguns itens ficaram na mochila de roupa, que ora passeava em algum lugar deste planeta.

Passava das 8h quando fui acordado por um representante local da seguradora trazendo-me US$100 para minhas despesas emergenciais enquanto providenciavam a recuperação da mochila. Isto não zerava meu prejuízo, mas claro que ajudava. Por causa deste incidente passei a véspera do encontro oficial correndo de um lado para o outro deste oásis tentando achar um óculos de sol com proteção contra raios ultravioleta A e B, boné de bico grande e proteção ao bulbo raquidiano, tabletes de álcool sólido – único combustível autorizado nos acampamentos – além de itens mais simples como isqueiro, faca, pasta e escova de dentes. Ao final do dia eu estava cansado mas com todos os equipamentos perdidos substituídos.

No dia seguinte, o tão esperado encontro para seguirmos em direção ao não divulgado local do Acampamento 1 foi exatamente no aeroporto. Ao chegar fui direto para o setor de bagagens e extravios e, como se fosse mentira, minha mochila havia chegado lá poucos minutos antes. Mais uma vez a sorte estava ao meu lado.

Sem muita confusão, entramos nos ônibus que nos aguardavam e partimos para não sei onde. Após seis horas de viagem com direito a apenas uma parada para lanchar debaixo da única árvore em quilômetros, fomos abandonados no meio da estrada perto do acampamento 1. Ali começaria nossa inesquecível semana.

Logo que cheguei e fui procurar uma das tendas de língua espanhola na qual eu estava autorizado a ficar, fui encontrado pela equipe venezuelana que já havia reservado um lugar em sua tenda para mim. Nós nos correspondemos via e-mail nas últimas semanas que antecederam o evento, e combinamos de montar a barraca da América do Sul, representada pelos quatro e eu. Depois de um descontraído bate-papo, jantamos e dormimos. O dia seguinte seria bastante tenso.

Pensando na dificuldade de prever-se, por parte dos competidores, como é passar uma noite fria no deserto e que quantidade de agasalhos usar, a organização planejou chegarmos dois dias antes da primeira largada. Após esta primeira noite tem-se o famoso e temido dia da fiscalização no qual o staff confere a presença de todos os itens obrigatórios e a quantidade de calorias carregadas na mochila. Será que vão considerar corretamente as calorias de meu isotônico? Será que meu kit de extração de veneno de cobras é o que realmente eles querem? Meus alimentos desidratados fora da embalagem serão aceitos? Além destas dúvidas houve o choque de descobrir que meus equipamentos de ponta, levíssimos, eram carroças comparados com o que eu estava vendo à minha volta. Além disto, eles recebem as malas e mochilas que deverão retornar ao hotel para serem guardadas até o dia de nossa chegada uma semana depois. É nesta mochila que despachamos os casacos que nos arrependemos de levar após descobrirmos que o frio de 8 graus durante a noite é suportável dentro do saco de dormir. Tranquilos após a bem sucedida fiscalização, fomos jantar a última refeição que nos seria oferecida antes de iniciarmos o período de auto-suficiência e depois dormimos o sono dos justos.

Apesar de armarem nos acampamentos uma estrutura metálica forrada de lona que dava a aparência, funcionalidade e até era chamada de banheiro, todos os 583 competidores e os mais de 300 jornalistas e pessoal do staff preferiam usar as moitas que estrategicamente existiam em torno dos acampamentos. O problema maior não era achar um local sem ninguém por perto, mas uma moita que ainda não havia sido usada antes… Para diminuir o peso e o volume na mochila com rolos de papel higiênico eu levei lenços umedecidos usados por bebês. Para calcular a quantidade certa a levar sem haver desperdício fiz alguns testes no Brasil. Esta foi minha sorte. Todas as mães deveriam fazer o mesmo. Poucas sensações são tão desagradáveis quanto a umidade que estes lenços deixam. Incluí alguns lenços de papel na minha bagagem.

A manhã do primeiro dia de corrida começou tensa, com uma incrível eletricidade no ar. Após o primeiro desjejum preparado por mim a base de granola desidratada, como aliás todos os outros alimentos, fiz uma série de alongamentos e um trote com a equipe da Venezuela. Estava pronto para correr 30 km com 10,5 kg nas costas. Ou achava que estava. Após um discurso do Patrick Bauer, criador e diretor da prova, com direito a acenos para o helicóptero que transportava uma equipe de filmagem de alguma rede estrangeira de televisão, foi dada a largada em meio a aplausos e muitos Good Luck!! Este primeiro dia serve para os competidores avaliarem a si, os outros e o ambiente. Inicialmente, seguindo instruções de Lauter e Luciana, eu corri com um frequencímetro cardíaco limitando minha pulsação em 155 batimentos por minuto. A preocupação deles era com o excesso que eu poderia cometer neste primeiro dia, em função da excitação do desconhecido. Enquanto corria por terrenos de terra batida eu consegui me controlar. Porém, após 20 km de muito sol, apareceram dunas de 3 metros de altura intercaladas por retas de areia fofa que obrigaram os corredores a diminuir o ritmo e caminharem. Nesta hora, apesar de todos os pedidos feitos pelos preparadores físicos, eu iniciei uma corrida suicida com 175 pulsações por minuto que só encerrei após cruzar a linha de chegada com o tempo de 4h6min3s. Claro que este exagero teve um preço. As dores abdominais que senti durante mais de uma hora foram indescritíveis. As câimbras nas pernas me obrigavam a fazer malabarismos para me virar ou levantar nas primeiras duas horas de descanso após a chegada. Uma ida à tenda médica provocaria o risco de ganhar uma penalidade ou uma desclassificação, por isso eu tentei ao máximo sobreviver quieto no meu canto. Quando voltei a ter domínio sobre o meu corpo preparei um delicioso macarrão com brócolis e fui mandar e-mails para a família, os amigos e a imprensa. Antes das 20h todos já dormiam no acampamento.

Acordar no segundo dia de corrida foi um sofrimento. Toda a musculatura doía e nas costas os sucessivos impactos da mochila haviam sensibilizado muito a região lombar. Após um desjejum de granola, mel e morangos desidratados eu parti para o aquecimento e alongamento, mas o arrependimento veio ao primeiro movimento. Coincidentemente a grande maioria dos competidores agiu da mesma forma, poupando um pouco de sofrimento antes da largada. E isto continuaria por todos os outros dias da corrida.

Antes da largada eu fui conversar com o marroquino Lahcen Ahansal, franco favorito deste ano, segundo lugar em 98, na época ficando apenas 12 minutos atrás de seu irmão, que este ano não competiria na MdS pois estava, segundo diziam as más línguas, ganhando dinheiro correndo na Europa. Lahcen continuava aqui como guia de montanhas em Marrakesh. Ele ficou muito alegre em tirar uma fotografia comigo quando soube que eu era brasileiro.

Conversamos um pouco e ele me deu as boas-vindas ao seu país. Nesta manhã eu também fui conversar com o francês Michel, que já participou de 12 MdS de um total de 14 edições. É uma figura bastante conhecida e todo ano ganha o troféu Participação. Finalmente dada a largada, partimos para mais um dia de prazeres e sofrimentos. Esta etapa, de 32,5 km, era repleta de montanhas além de algumas dunas. Praticamente todos os competidores, à exceção de Ahansal e alguns poucos, subiam e desciam estas montanhas andando. Os motivos que norteavam esta atitude eram o excesso de calor, a extrema exigência física e o medo de torcer um pé, principalmente nas descidas. Nada disto porém parecia importar para os top runners.

A chegada ao acampamento, após 4h32min49s, foi menos traumática que a do dia anterior, mas ainda assim as câimbras se fizeram presente por quase duas horas. Todos passaram o fim de tarde batendo papo nas tendas, trocando idéias e experiências sobre a corrida do dia. Além disto, olhávamos atentamente o Road Book que continha as características do terreno que enfrentaríamos no dia seguinte. Nesta hora tentávamos memorizar as quilometragens dos Postos de Controle para nos guiarmos em relação à velocidade que estaríamos desenvolvendo e à distribuição durante o percurso da água que recebíamos nestes Postos. Quando me senti em condições físicas, tomei um banho com 750mL de água mineral. Este banho era cientificamente planejado. Os goles de água eram despejados na cabeça, com o corpo excepcionalmente vertical para não haver nenhum desperdício da água que descia pelo corpo. Uma mão segurava a garrafa e a outra vinha raspando braços e pernas tentando tirar toda terra que fosse possível. Depois deste relaxante e revigorante banho preparei um lauto jantar desidratado. Em função do sol ainda estar razoavelmente forte foi possível cozinhar colocando a quantidade especificada de água dentro do saquinho zip em que estava armazenado meu arroz com frango, amêndoas e legumes e deixá-lo hidratando-se ao sol cerca de 40 minutos. Desta maneira o alimento ficava mais macio do que quando feito da maneira tradicional. Adormeci curtindo o céu mais estrelado que jamais havia visto em todas as minhas andanças pelo mundo.

O terceiro dia nos aguardava com um percurso de 37km recheados de dunas e muito terreno forrado de implicantes pedrinhas que faziam de tudo para incomodar a cada passada. Como o dia seguinte seriam os famosos e temidos 74km, todos se pouparam um pouco, alternando corrida com caminhada. As dunas deram um certo trabalho mas não se compararam às da quinta etapa, conforme eu viria a descobrir mais tarde. O acampamento da chegada estava armado sobre um lago seco petrificado, duríssimo para furar as estacas das tendas. Thanks God! Quem arma as tenda são os bérberes do deserto contratados pelos organizadores da prova. Esta etapa foi feita em 6h56min9s, o que impediu o tradicional banho de 750mL de água. No fim da tarde a queda de temperatura é absurdamente rápida apesar do sol ainda estar à mostra, além do vento vespertino aumentar muito a sensação térmica de frio. Até a feitura do almoço-jantar necessitou da ajuda do fogareiro para esquentar água. Na volta da tenda da Organização onde havia a internet em que eu enviava meus e-mails encontrei todos meus companheiros de tenda dormindo. O vento estava mais forte que os dias anteriores e o frio realmente estava incomodando. Pulei dentro do saco de dormir e tentei me relaxar para enfrentar o dia seguinte.

A tensão que corria por todo o acampamento era explicável. Mais do que as dunas, o sol, as noites mal dormidas e a comida desidratada, o que realmente assustava a todos era esta quarta etapa e seus 74km que incluiam um trecho à noite. O desjejum desta manhã foi um delicioso arroz com frango oferecido pelo venezuelano Mauricio e meia Coca Cola cedida pela venezuelana Corina, que estava lá como jornalista e tinha direito às refeições no acampamento. Comi, bebi, arrumei a mochila e fui bater papo aguardando a hora da largada. No deserto da Saara existe um habitante que aparece ao primeiro raio de sol e só vai embora junto com ele: a mosca! Elas grudam em bandos e não estão nem aí para abanos e tapas dados pelo infeliz hospedeiro. Por motivo de sobrevivência, pelo menos mental, acostuma-se em poucos dias a deixá-las andando em seu corpo sem muito incômodo. Primeiro insensibiliza-se as pernas. Em seguida passa-se aos braços e ao tronco. O rosto demora um pouco mais. Eu não tive tempo de chegar aos cílios. Creio que mais alguns dias de corrida e eu atingiria a plenitude do desprezo filosófico a elas. Pois bem, enquanto conversava nesta manhã uma mosca mais afoita entrou em rota de colisão com minha boca aberta entre uma sílaba e outra e só freiou na minha garganta. E eu, que já havia bebido muita água, fui obrigado a tomar mais. Com certeza ela morreu afogada e não asfixiada. Ah, o doce sabor da vingança… No dia seguinte uma outra mosca tentou a mesma gracinha. Eu fui mais rápido que ela e cerquei-a antes de chegar à garganta. Cuspi-a fora vitorioso.

Este percurso incluía montanhas, dunas, areia fofa, terra batida com pedrinhas e retas sem fim. A largada dos mortais foi às 9h30 e a dos 90 primeiros na classificação parcial aconteceu 3 horas depois. O intuito desta divisão foi o de obrigar todos a correrem parcialmente no escuro. Por uma questão de teimosia, Lahcen discordou da Organização e, apesar de ter largado às 12h30, completou estes tortuosos 74km antes do sol se por. Talvez no próximo ano obriguem-no a largar durante a noite…

Ao entardecer, pela primeira vez até este estágio fiquei realmente sozinho. Não havia competidores em nenhuma direção. Quando o sol se escondeu eu estava perto do Posto de Controle de 55km. Passei por ele e rumei ao próximo obstáculo, 3 quilômetros de dunas com 15m de altura. Depois de vários minutos caminhando sobre uma duna rumo a uma baliza iluminada como as outras que vi no caminho ao escurecer, percebi que ela andou. A baliza na verdade se tratava de um competidor perdido. Neste momento eu havia encontrado japoneses, italianos e ingleses sem rumo, tentando chegar a uma conclusão da direção a seguir. De posse de uma bússola e um Road Book percebemos que fomos enganados pelo competidor iluminado que nos guiou. De volta ao rumo certo, depois de concluirmos que estávamos “somente” defasados em 180 graus, novamente nos separamos pois cada um queria atravessar as imensas dunas de 15m de uma maneira diferente. Uns tentavam, sem resultados positivos, seguir pelas cristas sem ter uma visão completa da duna, o que era impossível com uma simples lanterna. Outros, mais realistas, cruzavam as dunas preocupados apenas em seguir na direção indicada pela bússola sem fugir dos imensos paredões. Isto me fez ficar adiantado em relação a quase todos estes 14 competidores. A partir daí fiz o resto do trajeto praticamente sozinho, encontrando momentaneamente raros competidores que, por estarmos em ritmos e velocidades diferentes, somente nos cruzávamos e em seguida nos separávamos. Exatos 15h20min32s depois da largada cheguei ao acampamento morrendo de fome. O macarrão com molho de tomate desidratado que cozinhei às 2h da manhã estava digno de um chef italiano. Acho que o estado em que encontrava-me naquele momento ajudou nesta classificação.

O regulamento permite que o quarto estágio seja feito em 40 horas. Quem não dorme após os 55km, onde o regulamento exige a passagem em menos de 16 horas, tem o dia seguinte para descansar enquanto os outros correm. Este dia passou muito rápido. De manhã fiz o desjejum, cuidei das bolhas nos pés e preparei o almoço. À tarde, após um descanso, cuidei novamente das bolhas, preparei a mochila, estudei o percurso do dia seguinte e preparei o jantar. Antes de comer mandei uns e-mails. Pronto, acabou o descanso.

A manhã do quinto estágio, apesar de todo o esforço despendido até agora, pareceu que seria gloriosa. O acampamento foi armado aos pés do Erg Chebbi, a maior área de dunas de toda a região, e o ponto alto seria cruzarmos 14km de dunas com 30m de altura nas quais nem os veículos com tração 4X4 conseguiam atravessar. O trecho total deste dia era de 42km, conhecido como o estágio da maratona.

Dada a largada começou o sobe-e-desce nas dunas, sempre com o otimismo exacerbado, tendo certeza a cada subida de que aquela seria a última, e que ao chegar no alto veríamos um maravilhoso chão de terra batida nos esperando lá embaixo. Isto repetiu-se incontáveis vezes, sempre vendo à frente mais uma incomensurável duna. Depois disto os 28km restantes foram feitos muito bem, sem qualquer percalço. Esta etapa foi completada 6h25min3s após Patrick Bauer ter dado a largada com uma tradicional contagem regressiva em francês.

Esta noite todos estavam animados. A fogueira que os bérberes sempre acendiam para conversar em volta, desta vez estava muito maior. Muitos competidores batiam papo descontraidamente já considerando terminado o desafio, uma vez que a última etapa seria de míseros 9,5km, com os últimos 2km sobre asfalto dentro da cidade de Erfould, cujas luzes víamos ao longe. Esta foi a mais relaxada de todas as 8 noites que passei no deserto.

Por motivos estratégicos a largada só foi dada às 11h da manhã. Passamos por terra batida, pequenos rios com água e uma grande obra de urbanização na periferia da cidade. Quando começamos a cruzá-la vimos que toda a população estava nas calçadas vibrando festivamente. Na empolgação decidi abrir antes a pequena bandeira brasileira que levava dobrada na cintura para desfraldar na reta final, tradição antiga nesta prova. Qual não foi minha surpresa quando, ainda com a bandeira meio dobrada, começaram os gritos de “Brasil! Brasil!”. Estimulado e orgulhoso aumentei o ritmo da corrida levantando cada vez mais a bandeira. Em seguida, por mais de um quilômetro até a faixa de chegada, ouvi “Brasil! Ronaldo! Brasil! Ronaldo!”.

Após 59min37s, enquanto trocávamos parabenizações dentro da área restrita aos atletas, cercada em plena praça principal de Erfould, eu já viajava em meus novos projetos, inclusive a criação do site www.sposito.com.br, no qual eu mostraria esta e outras aventuras.