publicado no site de aventuras Webventure em 24/09/02
A ideia deste desafio surgiu durante a leitura descompromissada de uma
reportagem sobre o Parque Nacional da Tijuca. Após alguns meses debruçado
sobre mapas do Parque e dois anos colocando as botas de trekking na terra e na
lama, Pedro Menezes, diretor do Parque na época, unificou cerca de 42 km de
trilhas em um árduo trabalho de reabertura de antigos caminhos fechados pelo
desuso e fechamento de indesejáveis atalhos abertos por pseudo-montanhistas
preguiçosos, criando a Trilha Externa Major Archer.
E não foi necessária a abertura de uma trilha nova sequer para conseguir manter a continuidade total do percurso!
Para coexistir com a proibição oficial de pernoites dentro dos limites do Parque, houve a preocupação da rota de cada dia de caminhada na Trilha terminar em algum trecho de asfalto da malha interna de trânsito. Assim, ao final de cada dia, o montanhista se deslocaria para fora do Parque continuando o trecho seguinte em uma próxima oportunidade, completando o percurso total em quatro dias de caminhadas.
Com a atenção sempre voltada para corridas em trilha, a primeira coisa em que pensei ao ler a reportagem foi, como sempre: “se existe o caminho, eu quero faze-lo correndo!”. Ato contínuo, liguei para Giovanni Mello que, logicamente, aceitou na hora o desafio, sem ao menos pedir tempo para pensar.
Dias depois estávamos na Floresta da Tijuca, em plena Trilha Major Archer, fazendo anotações de tempos e distâncias. Exatamente neste dia, coincidentemente, encontramos o Pedro Menezes por lá e expusemos nosso projeto do Desafio. Ele nos deu total apoio e combinamos um contato futuro para conseguirmos mais informações.
Como os projetos de corridas em trilha estão sempre fervilhando em nossas mentes, pusemos temporariamente na gaveta esta corrida para concretizar dois outros projetos que já se encontravam em andamento: a corrida no Deserto de Mojave e a volta na Ilha Grande.
Ao fazermos o planejamento dos desafios de 2002 decidimos voltar à ideia da Trilha Externa Major Archer, que muito nos agradava, principalmente por homenagearmos nossa cidade e divulgarmos as diversas opções de caminhadas disponíveis na maior floresta urbana do mundo, tentando quebrar a velha trilogia “Pico da Tijuca-Bico do Papagaio-Morro da Cocanha”.
Durante a fase de estudo e análise do desafio anotamos os tempos de cada ponto da trilha, incluindo todos os desvios onde, na prática, se encontravam as maiores dificuldades em termos de variação de altitude e fortes aclives. Com o esforço despendido nestas caminhadas e os dados coletados, fizemos projeções de que seria possível correr a trilha inteira em menos de nove horas, talvez oito.
Com o apoio da Osklen e do movimento e-brigade, decidimos marcar o dia 4 de agosto para o “Desafio Volta na Floresta”. Porém, com a aproximação da data, as previsões meteorológicas pintaram os céus destes dias com todos os matizes de cinza molhado que se possa imaginar.
Como nosso objetivo era correr, não caminhar, tentamos evitar ao máximo a passagem por terrenos lamacentos e escorregadios, principalmente depois de nossa encharcada experiência durante a noite da Volta na Ilha Grande, quando perdemos bastante tempo evitando os tombos causados pelo liso solo molhado, além de diminuirmos drasticamente a velocidade.
Acreditando nas previsões dos meteorologistas, que prometiam “de céu meio encoberto a sol”, transferimos o Desafio para o dia 7 de agosto. Na véspera, à tarde, porém, o Rio de Janeiro foi o epicentro de ventos que atingiram 90 km/h e as previsões oficiais, claro, foram alteradas para “chuvas e trovoadas”. Como o preparo logístico e psicológico (leia-se “sem vontade nenhuma de adiar novamente!”) estava mais do que pronto, decidimos manter a data combinada.
A manhã do dia do Desafio, apesar de a rede mundial de computadores, torres e satélites dedicados à previsão do tempo garantirem muitas trovoadas, presenteou-nos com um céu completamente esquecido de pendurar uma nuvem sequer para nos refrescar com uma pequena sombra durante a corrida. Tá certo que não queríamos chuva, mas...