3a. parte
No mesmo dia partimos para o Mojave National Preserve. As estradas secundárias
são um capítulo à parte. O tempo inteiro passamos por lindos cartões
postais, com o deserto sendo cortado apenas por um longo tapete de asfalto. Já bem
perto da Entrada Sul passamos por Amboy, um lugarejo com uma placa que indicava
"fundada em 1858 , população 20". Mas tive a impressão que era mentira. Não vi esta
gente toda na cidade!... Além disso, a gasolina era descaradamente vendida pelo dobro
do preço médio e o posto ainda estava fechado! Mais adiante existia um aviso alertando
que este era o último posto nos próximos 150 quilômetros. Imediatamente entendemos o porquê
do preço.
Já dentro do Mojave National Preserve, enquanto cruzávamos de sul para norte, eu ia analisando o local que previamente havia estudado no Brasil como outra opção de trilha para realizar meu desafio. A região, como todos os desertos que se prezem, é extremamente atraente e, diria até, mágica. Aqui, notava-se um espaçamento bem maior entre uma moita de espinhos e outra, tornando o solo mais visível e a paisagem com mais cor de terra. Porém, também era repetitiva. Corri durante algum tempo, treinando e sentindo as dificuldades do solo e da vegetação local (leia-se: arbustos de espinhos!). Adorei este treino. Mas meu coração continuou pendendo para o Joshua Tree National Park...
Como faltava pouco tempo para escurecer e ninguém é de ferro, desviamos nosso caminho para Las Vegas, que ficava a pouco mais de cem quilômetros da Entrada Norte. Quem sabe eu teria sorte e correria com um tênis cinco estrelas? Entramos no primeiro cassino que vimos e apostei meus tradicionais dez dólares nos caça-níqueis de vinte e cinco cents, sentindo que a sorte estava me observando... Fui com toda a fé!
Mudando de assunto...
No dia seguinte rumamos para o famoso Death Valley National Park (com dez dólares a menos no bolso), onde existe o local mais baixo dos EUA, Badwater, chegando a 86 metros abaixo do nível do mar. Com os 52 graus centígrados que peguei no Sahara, perto do Sudão, e os 58 graus centígrados que senti enquanto corria a Marathon des Sables, fiquei admirado com o vento quente e seco que insistia em soprar por lá. É algo realmente indescritível e, creio eu, único. Sem exagero, a região é quase irrespirável.
Aqui também fiz um pequeno treino, com o intuito de sentir o local em todas as sua nuances. A região lembrava um pouco algumas áreas do Deserto de Atacama no quesito "cor do solo". Sua vegetação era mais escassa do que a dos outros dois parques, o que facilitaria a corrida em relação à possibilidade de ferimentos nos milhares de arbustos de espinhos dos outros dois locais. Mas a beleza do Joshua Tree National Park continuava vencendo. Quem sabe eu volto aqui em uma próxima oportunidade?... Viramos o leme para o sul e retornamos para a primeira opção!