O primeiro brasileiro correndo a pé no deserto do Saara

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primeiro capítulo do livro

Correndo nas Areias do Saara – o primeiro brasileiro na Marathon des Sables

“175 vezes por minuto!

Essa era a velocidade com que meu coração batia naquele momento. O frequencímetro cardíaco que eu trazia preso ao tórax, e que captava o número de batimentos do meu coração a cada instante, não parava de apitar. Isso significava que eu havia ultrapassado a frequência determinada previamente como limite de segurança.

Pudera! Eu estava correndo sobre um mar de areia fina, subindo e descendo dunas com mais de 15 metros de altura. No alto, o sol ardia inclemente.

Dunas - mexida para fundo do site

Todo esse ambiente explodia numa variedade incrível de cores: amarelo alaranjado da areia, azul brilhante do céu, vermelho brasa do sol, marrom claro da terra seca…

Desde o início da manhã eu havia corrido 25 quilômetros, ora sobre montanhas e terrenos pedregosos, ora afundando em dunas como essas que agora engoliam meus pés a cada passada.

Parecia que aquilo iria durar pra sempre!

Até onde a vista alcançava não havia uma nuvem ou sombra sequer que aliviasse o calor. Árvores para que eu pudesse passar por baixo e refrescar por alguns instantes? Nem pensar!

As dunas haviam acabado, pelo menos por enquanto. Os dois quilômetros que eu começaria a enfrentar seriam novamente de terra.

E como a sola do pé doía! As pedrinhas que pareciam brotar do chão à medida que eu passava desrespeitavam até o solado de borracha do tênis.

Saara - Carlos Sposito - 3a etapa da prova - 14h55 - Ufa!...O posto de controle esta logo ali

Na última hora e meia eu já havia ultrapassado algumas dezenas de competidores, o que me dava força pra continuar em ritmo forte, mesmo com as constantes reclamações do frequencímetro cardíaco.

Ainda corri por mais dois quilômetros até avistar algo no horizonte que em nada combinava com o que eu conhecia sobre relevos e cores de desertos. Com uma suspeita em mente, continuei naquela direção tentando entender o que poderia ser. Minutos depois pude confirmar minha suposição. Aquele era o pórtico de entrada do acampamento que tanto torci pra surgir no horizonte.

Eu havia chegado à região de Khermou, no coração do deserto do Saara!

Completei, em pouco mais de quatro horas, os 30 quilômetros desse primeiro dia da Marathon des Sables, uma das ultramaratonas mais cascudas do planeta.

E eu era o primeiro brasileiro a conseguir isso!

Saara - Carlos Sposito - 3a etapa da prova - 17h09 - Mais uma chegada!

Assim que cruzei a linha de chegada e entrei no acampamento, um dos organizadores da prova registrou meu número de identificação em sua planilha e indicou a fila onde estavam sendo distribuídas as duas últimas garrafas d’água a que eu teria direito naquele dia. Agradeci e fui pegá-las.

Subitamente, faltando poucos metros pra chegar à fila, senti uma forte dor no estômago. Parecia uma mão de ferro apertando minhas vísceras! O excesso de esforço nas últimas horas havia bagunçado demais meu organismo. Shakespeare estava coberto de razão ao escrever que “todo mundo é capaz de dominar uma dor, exceto quem a sente”.

Esse sofrimento físico, porém, não era o pior problema. Pelo regulamento, os membros da equipe médica deveriam retirar da prova qualquer competidor que apresentasse condições clínicas perigosas à própria integridade física. E eu não poderia correr o risco de que tantos meses de sacrifícios, investidos em meu pesado treinamento físico, se perdessem daquela maneira, já no primeiro dia de competição.

Decidi então me esconder da ajuda médica. Fingi que nada de errado estava acontecendo. Entrei na fila da água com o melhor sorriso que aquela condição me permitia disfarçar.

Alguns minutos ­— e muitas dores — depois, já com as garrafas na mão, caminhei em direção à minha tenda. Estava crente que o pior tinha passado.

Não tinha.

Não consegui chegar lá.

Os poucos metros que me separavam da tenda, onde eu poderia me jogar no chão pra descansar, pareceram mais distantes e sofridos do que os 30 quilômetros que eu havia acabado de correr.

Saara - Carlos Sposito - 4a etapa da prova - 1o dia - 19h19 - Ultima foto do dia, antes de escurecer

Ali mesmo larguei a mochila e as garrafas no chão e andei a esmo. Pra me distanciar dos médicos tentei simular um passeio para admirar a beleza infinita do deserto. Escolhi uma direção sem qualquer pessoa no caminho. A imensidão daquela grande planície de terra e areia permitiu que eu me afastasse cada vez mais do acampamento e da vista de todos.

Sempre que surgia um novo espasmo com a intenção de me derrubar eu apertava o estômago com as mãos, parava de caminhar e aguardava. Várias vezes me abaixei pra não cair no chão, tamanha era a força com que as contrações me desequilibravam.

O cheiro de terra, que esteve tão agradável quilômetros antes, agora revirava meu estômago como um moedor de carne. Eu estava fisicamente no limite.

Nesse momento me veio a célebre pergunta que surge nos piores perrengues: “O que eu estava fazendo ali?”

Por que diabos eu vim parar numa corrida a pé de 230 quilômetros, com uma mochila de 12 quilos nas costas, no meio das areias escaldantes do deserto do Saara? Pra responder essa pergunta eu precisava voltar 7 meses no tempo e 8.000 quilômetros no espaço.”

Carlos Sposito - Marathon des Sables - percurso completo