O primeiro brasileiro cruzando o Grand Canyon correndo a pé

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Publicado originalmente no site de aventuras 360 Graus

A ideia de ser o primeiro brasileiro a cruzar o Grand Canyon correndo surgiu durante uma conversa com a ultramaratonista americana Cathy Tibbetts, em fins de julho. Cathy, participante como eu da Marathon des Sables no deserto do Saara, também possuía no currículo participações na Maratona do Everest e na ultramaratona do Vale da Morte, além de adventure races como The Beast of the East. Depois de vários e-mails estávamos decididos. Agora só faltava contar para Lauter Nogueira e Luciana Toscano, meus preparadores físicos, que eu tinha menos de dois meses para me preparar para mais esta. Caras feias à parte, começamos o treinamento em busca do tempo perdido…

foto 01 - Carlos Sposito cruzando o Grand Canyon correndo

Depois de 48h totalmente gastas entre aeroportos, voos e estradas, cheguei à noite em Grand Canyon Village, base de onde partiria para a travessia, com o apoio da Wöllner Outdoor e da Hi-Tec.

Passei dois dias conhecendo o local, caminhando por entre as trilhas, ambientando-me física e psicologicamente, pois se a visão do cânion é aterradora para qualquer visitante, imagine para quem pretende cruzá-lo correndo…

foto 05 - Carlos Sposito cruzando o Grand Canyon correndo

A temperatura durante o dia oscilava perto dos 14°C apesar do céu sem uma nuvem, caindo para 4°C à noite. E foi neste ambiente frio e horrivelmente seco que fiz o penúltimo treinamento, quase às 22h. No dia seguinte corri em condições mais agradáveis, às 9h de uma linda manhã. Estes treinos faziam parte da estratégia de preparação física, finalizando minha aclimatação à altitude.

Finalmente, após um reforçado desjejum e os últimos acertos nos equipamentos, iniciamos, Cathy Tibbetts e eu, a travessia. O início aconteceu às 8h em South Rim, a uma altitude de 2212m. A trilha Kaibab é bem demarcada pois, além de ser usada por caminhantes, existe um razoável trânsito de mulas que transportam os mais preguiçosos e fazem salvamentos de caminhantes não preparados.

foto 02 - Carlos Sposito cruzando o Grand Canyon correndo

A descida foi muito agradável porque a inclinação da trilha não chegava a comprometer demasiadamente o joelho. Paramos inúmeras vezes para documentar fotograficamente toda aquela beleza exposta em ângulos diferentes do visto pelo observador tradicional que vê o cânion do alto.

O fim da descida, após 10,1 km e cerca de 2 horas e 15 minutos, ocorreu no encontro do rio Colorado, a 731 m de altitude. Neste ponto havíamos variado 1481 m verticalmente. Após cruzarmos a Kaibab Suspension Bridge corremos cerca de 2 km quase horizontalmente até começar uma tenebrosa e inesquecível subida de 21,5 km, com uma variação de altitude de 1784 m.

foto 11 - Carlos Sposito cruzando o Grand Canyon correndo

Com o peso dos equipamentos a subida tornou-se muito mais cansativa, mas como fazer para não levar água, lanterna, alimentos energéticos e casaco? Simplesmente, o risco seria incalculável em uma situação inesperada, como anoitecer antes de chegarmos ao fim ou o frio tornar-se um impeditivo em um local em que não havia condições de arrependimento. Por isto resignamo-nos a correr com alguns quilos às costas, coisa aliás que estávamos acostumados após os sete dias no Saara, totalmente autossuficientes.

Depois dos primeiros minutos em que tudo são flores (e fotos), a altitude começou a fazer efeito. Não estamos falando de uma caminhada pela cota 2000 m, onde qualquer pessoa com um mínimo de preparo físico não percebe o decréscimo de oxigênio no ar. Isto começa a acontecer em torno de 4000 m. Mas aqui o assunto era mais sério: correr nesta altitude nem de longe lembrava uma caminhada. A necessidade de oxigênio fez-se presente não na forma de falta de ar, mas no cansaço e dores na musculatura impulsora da perna.

foto 15 - Carlos Sposito cruzando o Grand Canyon correndo

Durante algum tempo foi possível conviver com isto. Porém, quando já havia vencido um bom pedaço, mas o que faltava parecia maior ainda, foi humanamente impossível fingir que nada estava acontecendo. A partir deste ponto os trechos de corrida eram intercalados com caminhadas e os pontos de parada para descanso começaram a ficar menos distantes. O que nos ajudava era a temperatura extremamente agradável à sombra.

Para piorar o fator psicológico, Cathy levou um altímetro de pulso. A cada 100 m que vencíamos verticalmente ela comemorava, sem olhar o outro lado da moeda: ainda faltavam muitos outros 100 m a vencer. Quando estávamos a menos de 700 m verticais da chegava (o que significavam vários quilômetros a correr!) a trilha deu uma guinada para baixo e não parou mais de descer. Cada metro descido era chorado mais do que quando foi subido, pois significava o dobro de sofrimento. Quando já não entendia mais porque descíamos tanto, chegou a explicação. O ponto final de nossa travessia não era na face que estávamos subindo, mas na face oposta. A trilha subia a primeira face apenas para contorna-la, desce-la em seguida e pegar uma ponte suspensa no nada que levava à outra face. Agora sim, deveríamos subir tudo novamente. Tem que haver muita força psicológica para aturar!…

Depois deste contratempo a subida realmente começou a parecer uma subida. Nada mais de descidas e nem de horizontais para descanso. A inclinação aumentou muito e isto acentuou bastante a sensação de peso da mochila (lembra das componentes X e Y das aulas de Física?).

foto 10 - Carlos Sposito cruzando o Grand Canyon correndo

Finalmente, quando parecia que só terminaríamos a trilha no céu, ouvimos as abençoadas vozes de Odette e Scott, nossa equipe de apoio. Pronto! Chegamos! Eles estavam nos esperando no final da trilha… Doce ilusão. Receosos pelo desafio inusitado que nos propusemos, sem termos uma noção precisa de quanto tempo levaria esta aventura, eles começaram a descer a trilha para nos encontrar quando acharam que já era tempo de preocuparem-se. Pois bem, a agradável sensação de terminar este pesado desafio foi adiada por mais 45 intermináveis minutos, quando finalmente chegamos ao topo da trilha North Kaibab. O cronômetro marcava 9h52 e o frequencímetro cardíaco indicava um gasto de 6.800 kcal. Estávamos a 2515 m de altitude e havíamos atravessado 33,6 km de trilhas vendo locais surpreendentemente lindo e inesquecíveis.

foto 08 - Carlos Sposito cruzando o Grand Canyon correndo

Agora era descansar de mais esta e pensar na ideia que Cathy e eu tivemos para uma aventura no Alasca…

Publicado originalmente no site de aventuras 360 Graus