O primeiro brasileiro correndo a pé no deserto de Mojave

logo-250x122-transparente

Publicado originalmente no site de aventuras Webventure

mojave-06

“Acorda! O piloto acabou de avisar que os EUA sofreram um ataque aéreo e o Presidente ordenou a todos os aviões que estejam em voo para que desçam imediatamente!”. Assim eu fui acordado por Odette, minha dublê de namorada e equipe de apoio, no que seria o último trecho do nosso voo Rio-Los Angeles pela Continental Airlines, com o objetivo de correr em mais um deserto. Desta vez, o escolhido havia sido o Deserto de Mojave, na Califórnia, e eu estaria novamente na condição de primeiro brasileiro a correr neste deserto, assim como foi no Deserto do Saara e no Grand Canyon.

“Que isso! Você entendeu mal. Se nosso amigo Gérard Moss, ao entrar de mau jeito no espaço aéreo do Vietnã com um pequeno motoplanador foi imediatamente cercado por aviões da Força Aérea, imagine se é possível alguém fazer um ataque aéreo aqui nos EUA! Volte a dormir porque ainda temos duas horas de voo”. Esta foi minha resposta lógica a uma afirmativa tão descabida…

Minutos depois, recebemos ordens para apertar os cintos e colocar a poltrona em posição vertical, pois iríamos fazer um pouso de emergência em El Passo, na fronteira com o México.

Ainda sem acreditar nesta estapafúrdia história, pousamos e recebemos instruções para permanecer no interior da aeronave. Uma senhora americana à nossa frente sacou de seu celular e ligou para a mãe, que morava em Manhattan. Com sua poltrona totalmente cercada por curiosos, ela passou a relatar as últimas notícias: “Dois aviões se chocaram com as torres gêmeas, uma delas desabou! Além disso, algo aconteceu no Pentágono!”. Estupefatos, recebemos ordens para sair do avião com as bagagens de mão e correr para o andar de baixo do aeroporto, pois esperavam até um ataque aéreo em El Passo!

Duas horas depois estávamos com as imagens do desabamento fixadas em nossas mentes, após terem sido vistas dezenas de vezes nas televisões do restaurante do aeroporto. Nos reunimos com alguns brasileiros que se encontravam na mesma situação e fomos todos para o último hotel da cidade onde ainda restavam vagas. No meio da tarde, alguém chegou com a notícia de que as estradas não estavam bloqueadas como noticiavam de maneira alarmante nos telejornais e havia um ônibus “pirata” saindo para Los Angeles no início da noite. Após algumas análises probabilísticas sobre a data provável da próxima decolagem, não nos esquecendo que nosso voo era Houston-Los Angeles e não El Passo-Los Angeles, trecho que não existia nesta companhia aérea, decidimos, por unanimidade, completar nosso percurso de ônibus, mesmo.

Em “apenas” 15h de viagem aportamos em um subúrbio de Los Angeles que, até agora, não imagino onde ficava. A partir dali, com “míseros” US$45 de táxi, finalmente estávamos em frente ao carro que havíamos alugado para ir ao deserto.

Eu saí do Brasil sem ter informações suficientes que me dessem condições de escolher uma entre as três trilhas diferentes que eu havia pesquisado. Ou, fazendo uma outra leitura da situação, não consegui decidir qual das três trilhas era a mais bonita, apesar da quantidade de informações que eu havia conseguido garimpar ainda no Brasil. Não me restou outra saída, senão ir ao Joshua Tree National Park, ao Mojave National Preserve e ao Death Valley National Park, conhecer cada uma das trilhas e fazer minha opção preferencial.

mojave-05

O primeiro parque a ser visitado foi o Joshua Tree, o mais ao sul dos três, estando perto da área de transição do Deserto de Mojave para o Deserto de Sonora, que também está na minha lista futura (aliás, como todos os outros que ainda faltam a ser corridos por mim…). O primeiro impacto visual foi dos mais impressionantes! A vegetação nativa, incluindo a endêmica árvore joshua, quase me fez roubar na pontuação, nem indo conhecer as outras duas trilhas. Acostumado à aridez monótona de outros desertos em termos de cobertura vegetal, do Saara marroquino, do Saara egípcio, do Atacama, do Deserto Patagônico e do Grand Canyon, fiquei fascinado por esta visão seca, porém verde e, descontando os exageros de um obcecado por desertos como eu, diria que era até luxuriante!

mojave-03

Minha análise técnica incluiu idas ao início e ao final da trilha, além de uma passagem pelo ponto onde eu encontraria Odette, minha equipe de apoio, para receber água e comer algo mais substancioso (um sanduíche!), que eu não pretendia carregar, tentando diminuir o peso da mochila. Em cada um desses locais o ambiente mudava bastante, não só em relação à altura da flora, mas também da distância entre cada exemplar, o que faria uma grande diferença ao correr, pois estamos falando de diferentes espécies de vegetais espinhosos. Sem exceção! Além disso, conversamos com os guarda-parques que nos deu informações sobre o estado da trilha e suas marcações. Neste ponto, confesso, eu já estava bem tendencioso…

mojave-01

No mesmo dia partimos para o Mojave National Preserve. As estradas secundárias são um capítulo à parte. O tempo inteiro passamos por lindos cartões postais, com o deserto sendo cortado apenas por um longo tapete de asfalto. Já bem perto da Entrada Sul passamos por Amboy, um lugarejo com uma placa que indicava fundada em 1858, população 20″. Mas tive a impressão que era mentira. Não vi esta gente toda na cidade!… Além disso, a gasolina era descaradamente vendida pelo dobro do preço médio e o posto ainda estava fechado! Mais adiante existia um aviso alertando que este era o último posto nos próximos 150 km. Imediatamente entendemos o porquê do preço.

mojave-02

Já dentro do Mojave National Preserve, enquanto cruzávamos de sul para norte, eu ia analisando o local que previamente havia estudado no Brasil como outra opção de trilha para realizar meu desafio. A região, como todos os desertos que se prezem, é extremamente atraente e, diria até, mágica. Aqui, notava-se um espaçamento bem maior entre uma moita de espinhos e outra, tornando o solo mais visível e a paisagem com mais cor de terra. Porém, também era repetitiva. Corri durante algum tempo, treinando e sentindo as dificuldades do solo e da vegetação local (leia-se: arbustos de espinhos!). Adorei este treino. Mas meu coração continuou pendendo para o Joshua Tree National Park…

mojave-04

Como faltava pouco tempo para escurecer e ninguém é de ferro, desviamos nosso caminho para Las Vegas, que ficava a pouco mais de cem quilômetros da Entrada Norte. Quem sabe eu teria sorte e correria com um tênis cinco estrelas? Entramos no primeiro cassino que vimos e apostei meus tradicionais 10 dólares nos caça-níqueis de 25 cents, sentindo que a sorte estava me observando… Fui com toda a fé!

Mudando de assunto…

No dia seguinte rumamos para o famoso Death Valley National Park (com dez dólares a menos no bolso), onde existe o local mais baixo dos EUA, Badwater, chegando a 86 metros abaixo do nível do mar. Com os 52°C que peguei no Saara, perto do Sudão, e os 58°C que senti enquanto corria a Marathon des Sables, fiquei admirado com o vento quente e seco que insistia em soprar por lá. É algo realmente indescritível e, creio eu, único. Sem exagero, a região é quase irrespirável.

Aqui também fiz um pequeno treino, com o intuito de sentir o local em todas as suas nuances. A região lembrava um pouco algumas áreas do Deserto de Atacama no quesito “cor do solo”. Sua vegetação era mais escassa do que a dos outros dois parques, o que facilitaria a corrida em relação à possibilidade de ferimentos nos milhares de arbustos de espinhos dos outros dois locais. Mas a beleza do Joshua Tree National Park continuava vencendo. Quem sabe eu volto aqui em uma próxima oportunidade?… Viramos o leme para o sul e retornamos para a primeira opção!

mojave-08a

Com a mochila recheada com quatro litros de água e isotônico, algumas barras energéticas, saches de carboidrato em gel, batatas fritas, castanhas, casaco, lanterna, pilhas, bússola, mapa, meias sobressalentes e filtro solar, com o peso total em torno de seis quilos, comecei minha corrida no Joshua Tree National Park pela Entrada Oeste, pontualmente às 8h de uma linda manhã.

mojave-09

Nos primeiros minutos de corrida, a ansiedade da novidade já estava controlada. Com a bússola e o mapa guardados, me lembrava da garantia que os guarda-parques nos deram sobre a ótima marcação da trilha. Depois da primeira hora de corrida cheguei a uma encruzilhada que não possuía marcação visível. Fui obrigado então a fazer o que é mais desagradável para um corredor de trilhas: parar e se orientar. Nesta hora se perde todo o ritmo que, a duras penas, se consegue correndo sobre areia fofa, com uma mochila pesada nas costas, concentrado no que se está fazendo, tentando se desviar das moitas de espinhos e dos locais em que a pisada irá afundar mais do que o normal.

mojave-10

A visão do ambiente quando se está correndo é completamente diferente de quando andamos. Por mais rápido que possamos estar em uma caminhada, sempre é tranquilo abrir um mapa e conferir sua posição, às vezes até sem precisar parar. Quando corremos em trilhas, sejam elas na Mata Atlântica ou em um deserto, necessitamos estar constantemente olhando para onde pisamos e o que está à frente do rosto para evitar acidentes. Os obstáculos surgem muito rapidamente quando corremos em um ambiente outdoor e, se desejamos olhar um mapa e uma bússola, devemos obrigatoriamente parar. E isto eu só faço em último caso quando estou correndo.

Às vezes, tardiamente, somente após o último caso…

Continuei correndo por algum tempo, seguindo a trilha bem demarcada, e bebendo, ora isotônico ora água, a cada oito minutos, avisado pelo meu fiel despertador automático que sempre uso nestas ocasiões. No meu outro punho eu carregava um frequencímetro cardíaco que, constantemente, eu monitorava para conferir se continuava abaixo do limite que eu havia definido para esta corrida, cento e cinquenta batimentos por minuto, valor este que, na minha condição de bradicárdico (meu coração bate lentamente em função de muitos anos de atividade aeróbica), representavam uma velocidade suficiente para não me esgotar durante as várias horas de atividade física que havia pela frente.

Mais uma vez me deparei com um trecho dúbio e fui obrigado a parar e me orientar. Como eu já estava correndo há quase 2h e a mochila não diminuía de peso aparente, apesar de estar me hidratando regularmente, aproveitei para me alongar e comer algumas batatas fritas, já que as barras e o gel de carboidrato já estavam começando a me enjoar, aliás, o que sempre me acontece depois da quarta barra, durante uma atividade extenuante como esta.

Após a terceira hora de corrida, comecei a notar que a vegetação estava se alterando. Eu não encontrava mais nenhuma joshua tree, mas sim uma prima distante dela e uns horrorosos espinhos em forma de bola que, ao grudarem na perna, me lembrava as histórias que eu ouvia quando era criança, a respeito da mordida da perereca, que só soltava durante uma noite de forte tempestade. Esta bola de espinhos só era possível de ser arrancada dos pelos da perna com auxílio de um graveto estrategicamente posicionado entre a bola de espinhos e a perna, funcionando como uma alavanca. E, várias vezes, a bola apenas pulava e mudava de lugar na perna. Esta operação era pior do que parar para me orientar…

A partir deste trecho, e por um bom tempo, apareceram umas cansativas subidas. Como se a trilha tivesse sido preparada de propósito, por alguém com um grande senso de humor negro, ela aumentava consideravelmente a quantidade de areia fofa nas subidas, atrapalhando muito o desenvolvimento das passadas. Esta areia não era a que vemos normalmente em praias. Na verdade, eu diria que era uma areia “terrosa”. Ou uma terra “areiosa”, como deve preferir alguns. Era uma terra bem fina que se comportava como areia no momento da corrida, deixando os pés afundarem como se eu estivesse em uma duna do Saara. E, quanto mais surgiam subidas à minha frente, mais aparecia esta areia!

Em alguns momentos era possível correr pela margem da trilha, onde havia uma vegetação similar à grama, na tentativa de evitar afundar os pés. Mas após algumas poucas dezenas de metros surgia uma moita de espinhos na margem, o que me obrigava a voltar para a areia. E assim eu fui correndo, em um quase zigue-zague, por bastante tempo.

Ao final desta sequência de subidas eu fui premiado com uma vista fascinante de um lindo vale em que a predominância de verdes arbustos de espinhos, colocados equidistantes uns dos outros tal qual um latifúndio de monocultura, me obrigou a diminuir a velocidade para admirar toda aquela beleza que, naquele momento, era uma exclusividade minha, já que eu era o único a estar cruzando aquela trilha durante aqueles dias.

A trilha de descida para o vale serpenteava perigosamente a crista da montanha em cima de uma passarela de dois palmos de largura, obrigando mais do que nunca a manter a atenção completamente voltada para o caminho, sem poder continuar desfrutando a maravilhosa vista. Mas isto era recompensado pelo prazer que sinto ao correr em trilhas deste tipo, em que a falta de atenção pode resultar em um acidente de incalculáveis proporções.

Com um pouco mais de 5h30min de corrida cheguei ao fundo do vale e, quando percebi, estava subindo a encosta de uma montanha. Como a trilha estava bem demarcada neste trecho, continuei por mais algum tempo. Porém, após uma guinada violenta no caminho, que me deixou correndo tranquilamente de costas para a direção que a trilha vinha mantendo há algum tempo, percebi que a melhor atitude a tomar naquele momento seria parar e me orientar.

Analisando o mapa concluí que, caso eu estivesse onde imaginava estar, não poderia haver uma subida ali! Tendo ganho uma certa altura neste trecho da encosta, pude ter uma boa visibilidade de toda a região. E, o que me chamou a atenção, foi um leito de rio seco distante uns 500m à minha direita, seguindo paralelamente ao que eu imaginava ser a direção da trilha. Ao invés de usar a bússola para orientar o mapa e me posicionar, simplesmente vi um leito de rio seco no mapa, exatamente na mesma posição que eu estava vendo na realidade. A vontade de correr falou bem mais forte nesta hora e, rapidamente, fui convencido por minha vontade de que os dois rios, no mapa e no mundo real, eram o mesmo.

Como eu já mencionei antes, não existe nada mais desagradável para um corredor de trilhas do que parar e se orientar. Estes preciosos minutos são suficientes para abaixar sua frequência cardíaca e te tirar do steady state, o “piloto automático” que te mantém em velocidade “cruzeiro”, com seu metabolismo suave, quase anestesiado. E, para não atrapalhar este estado, eu tentava fazer tudo da maneira mais rápida possível. Assim, neste momento, baseado nessa ânsia de continuar correndo, tomei uma decisão que pareceu acertada na hora, mas se mostrou fatal algum tempo depois: seguir dentro do rio seco até o momento em que haveria uma grande curva para o norte, onde a trilha cortaria o rio, segundo o mapa. Neste local, novamente eu seguiria pela trilha. Afinal, o rio que eu estava vendo era, “sem dúvida alguma”, o mesmo do mapa. Dessa maneira, com a opção que escolhi, eu havia definido como seria o resto desta aventura…

Por um longo tempo eu corri dentro do leito do rio seco. Enquanto tentava imaginar como seria diferente a paisagem se este rio estivesse exercendo a sua função básica existencial, eu ia subindo e descendo grandes blocos de pedra empurrados até lá em priscas eras. Apesar destes obstáculos, a corrida continuava fluindo bem. A diminuição do peso da mochila, por causa da ausência de grande parte da água e do isotônico que eu havia levado, facilitava essa boa velocidade, apesar de mais de seis horas de corrida entre um sol inclemente e uma areia mais inclemente ainda…

Inesperadamente, o rio fez uma curva e entrou em um tenebroso cânion. Um pouco distraído e deslumbrado com a beleza agressiva e opressora causada por duas paredes com algumas dezenas de metros, quase que completamente verticais e separadas por pouco mais de dez metros, continuei correndo por mais algum tempo, imaginando que aquilo teria um fim rapidamente. Enganei-me. Após algumas curvas que saíam e retornavam para a direção correta repetidas vezes, parei e tornei a olhar o mapa.

“O que é isto?!”, pensei.

Não deveria existir nenhuma elevação neste trecho do rio, segundo o mapa. E, com certeza, as paredes possuíam muito mais do que os oitenta pés da distância entre as curvas de nível no mapa. Como era fácil deduzir com esta simples constatação técnica, eu não estava no local que imaginava estar e, talvez, nem no rio que até então tinha certeza de estar correndo. Desta vez me rendi ao fato de que necessitava, realmente, parar com calma e entender onde eu estava e para onde deveria seguir. Sentei-me calmamente e abri o mapa no chão, apesar das muitas pedras neste local. Em seguida, comecei a tentar achar o trecho do rio em que aparecia abruptamente um cânion. Mas não conseguia encontrar nada! Por mais que eu examinasse pacientemente cada centímetro quadrado, nada tinha cara de cânion!…

“Não acredito!”, devo ter gritado repentinamente.

A única possibilidade, em toda a região, de um rio que entra em um cânion, localizava-se muito distante de onde eu pensava estar. E, o que era muito pior, também distante da minha trilha! Passado o primeiro impacto desta constatação, continuei tentando entender onde teria acontecido o erro que me desviou tanto do caminho correto, na tentativa de reverter todo este processo. Percebi então que havia uma trilha, legendada como “primitive unmaintained trail”, que cruzava a minha trilha original e seguia até o… adivinhem … sim, o cânion!

Alguns minutos, um gel de carboidrato e outros goles de água depois, voltei a correr no rio seco, na tentativa de encontrar o ponto em que comecei a usá-lo como referência. E esta volta, agora, parecia bem mais longa e trabalhosa do que a ida. No mínimo, devido ao leve aclive que possuía no sentido que eu agora seguia. Talvez, também, as posições das pedras que eu era obrigado a pular favorecessem mais as subidas e descidas em um sentido do que em outro. Mas, seja qual for a explicação, se houver, o que me preocupava naquele momento era a atenção que eu deveria ter para lembrar o local em que eu havia entrado no rio seco.

“Bingo!”, achei! O próximo passo seria retornar à trilha original.

Neste momento, olhando o cronômetro que indicava 8h36min de corrida contínua, entrecortada por pequenas paradas para me orientar ou comer uma batata frita, considerei como tendo cumprido minha meta: ser o primeiro brasileiro a correr no Deserto de Mojave.

Decidi, então, terminar a corrida ali, visando poupar uma energia que seria importantíssima a partir de agora. Restava-me pouco mais de duas horas de claridade solar e minha mochila estava mais leve do que devia. Eu não carregava, naquele instante, mais do que meio litro de isotônico e uma ou duas barras energéticas. Afinal, eu já deveria ter encontrado meu Apoio há muito, se não fosse este “pequeno” contratempo. E eu começava a me imaginar degustando um maravilhoso sanduíche de queijo que estaria me aguardando no ponto de encontro.

Continuei procurando a trilha. Em poucos minutos de caminhada encontrei uma trilha toda remexida, com muitas pegadas na areia fofa. Porém, não eram pegadas humanas, mas de coiotes, que existem aos montes nesta região. Tentei segui-la. Porém, poucos metros depois, ela terminava abruptamente. Continuei à procura de outra, paralela a esta, que eu imaginava ser na direção correta. Rapidamente me deparei com a próxima. Parecia ter mais pegadas de coiote do que a primeira. Mesmo assim, a trilhei por algum tempo. Novamente ela terminava em um paredão de arbustos de espinhos, que nesta área era abundante. Mais até do que deveria. A quantidade de arranhões que cruzavam minhas pernas para todos os lados seria motivo suficiente para me desclassificar em um concurso de beleza…

Alguns dissabores e muitos arranhões depois, na tentativa de seguir as trilhas de coiotes, a inclinação do sol começou a me lembrar que restava pouco tempo de claridade. Mais precisamente uma hora. E eu continuava sem muitas opções de trilhas. Aliás, nenhuma! Todas que apareceram pelo caminho não levavam a lugar algum. Baseado, então, nesta perspectiva não muito animadora, decidi partir para a estratégia mais radical em termos de orientação. Sim, exatamente o que vocês estão pensando: orientação por força bruta. Pelo mapa, eu vi que existia uma estrada de terra que cortava um trecho da região na direção norte-sul. Do ponto onde eu me encontrava, se eu marcasse o azimute leste e seguisse com decisão, independente do que houvesse pelo caminho e sem me desviar um grau sequer, eu chegaria até ela. Mais cedo ou mais tarde.

Comecei consciente de que haveria algumas subidas e descidas íngremes. Porém, a noite me pegaria em atividade. Isto não seria problema, pois apesar do plano de encontrar meu Apoio no início da tarde, eu havia trazido em minha mochila um casaco, lanterna e pilhas sobressalentes. E a primeira subida começou mais íngreme do que eu esperava. E sempre cruzando por trilhas com incontáveis pegadas de coiote. Claro que, apesar de curioso, não tinha vontade nenhuma de encontrar os donos delas…

Depois de uma descida e mais uma subida bem íngreme, na tentativa de tomar um atalho, a noite teimou em aparecer. Nesta hora, parei para sentar e colocar o casaco para me proteger do forte vento frio que começava a ficar insistente. Como que por um impulso mais forte do que minha vontade, me deitei com a cabeça sobre a mochila pensando em descansar alguns minutos. As pernas só podiam ficar esticadas, pois ao mudar de posição as câimbras insistiam em lembrar-me que eu possuía pernas. E, desta maneira, de pernas esticadas, short e casaco, adormeci ao vento.

Quando acordei, havia passado quase 2h. Meu relógio marcava perto de 21h30min e meu frequencímetro cardíaco indicava o gasto de 8400 quilocalorias até aquele momento. Desconectei-o de meu peito, já que estava me incomodando e a informação que eu desejava limitava-se ao período de corrida. Completamente sem disposição para voltar a caminhar, tomei mais um gole de isotônico, que a esta altura já havia entrado em ritmo de racionamento, e continuei sentado por um bom tempo, tentando encontrar disposição para voltar à atividade. Depois de quase 30min, decidi agir da maneira mais lógica de se sobreviver em um deserto: caminhar durante a noite e me abrigar durante o dia. Neste caso, meu otimismo me fazia crer que não seria necessário me esconder do sol no dia seguinte, já que eu sairia desta “roubada” em poucas horas.

Parti então na direção leste, subindo o que imaginei ser o último aclive antes do vale no qual eu supunha que avistaria a estrada de terra.

Quarenta e cinco minutos depois, quando cheguei ao alto da elevação e vi mais um vale com outra elevação a seguir, fui obrigado a fazer uso do meu experimentado preparo psicológico para este tipo de “furada”. Ainda com o moral mais ou menos alto, certo de que estava no rumo certo, parei novamente para me hidratar com meio gole de isotônico e descansar um pouco, sentado sobre uma pedra. Cansado pelo excesso de desgaste físico durante o dia, deitei e novamente dormi. Entre um cochilo e outro, olhando para um estrelado céu que só costumo presenciar em desertos, onde o ar é extremamente limpo, vi uma estrela cadente que, pelo tamanho, havia entrado na atmosfera em um ponto muito perto de mim.

Pouco tempo depois levantei tonto, sentindo cada vez mais forte os efeitos da desidratação. Veio-me então a lembrança de um trekking em solitário, de 85km em apenas um dia, que havia feito no sequíssimo Deserto de Atacama, ao tentar chegar ao vulcão Licancabur. Naquela noite eu havia sentido a pior sede de toda a minha vida.

Marcas do passado. Esta sede agora estava superando qualquer recorde anterior!…

Lentamente, cruzei mais um planalto em que os obstáculos me desviavam constantemente de meu azimute leste, por culpa dos imensos blocos de pedra cercados por moitas de espinhos e depressões no solo. De repente, exatamente à uma hora e cinquenta e um minutos da madrugada, vi ao longe uma pequena luz branca em movimento. Em seguida, em um pequeno intervalo entre as folhagens que encobriam esta visão, pude perceber uma luz vermelha. É claro que deveria ser um carro. Finalmente eu havia encontrado a estrada!

O prazer foi tão grande, e o relaxamento maior ainda, que decidi deitar um pouco e admirar novamente este brilhante céu que me cobria. Depois de 10min, levantei e parti com disposição, apesar de continuar desidratado e muito longe da estrada. Entre as duas opções possíveis, esperar amanhecer para continuar a caminhar ou seguir agora, escolhi continuar me arranhando no escuro e encontrar água mais rapidamente. Esta caminhada final aconteceu dentro de um grande rio seco, com muitas pedras imensas e vegetação espinhosa, com jeito de ser uma região selvagem e virgem. A partir deste ponto, com o rio me dando a impressão de estar seguindo na direção que eu precisava, associei meu azimute leste com uma formação de estrelas que, se não me falha a memória, usei-a em uma situação muito semelhante a esta no Deserto do Saara, quando corri a Marathon des Sables. E, exatamente como antes, as subidas e descidas do rio seco davam a impressão permanente de estar chegando ao ponto final.

Mas nunca chegava!…

Exatamente quando meu relógio marcou 3h37min da madrugada, pisei na estrada de terra. Fiquei tão aliviado por ter me safado de mais esta que deixei a sede de lado e não segui para nenhum dos dois lados da estrada. Deitei no acostamento e dormi tranquilamente. Quando eram 5h da manhã, um carro parou ao meu lado e um fotógrafo de natureza, que pretendia tirar fotos antes do nascer do sol, me perguntou se eu precisava de algo. “Água!!!!!”, respondi. Inconformado por ter esquecido sua água, ele me deu um café com leite quente sem açúcar, único líquido que ele tinha no momento, e que eu tentei saciar a sede, não deixando um gole sequer no copo. Após tirar as fotografias que queria, no mirante que existia no final desta estrada, ele retornou e me deixou no ponto de encontro onde Odette preocupada me esperava, tentando dormir um pouco.

Enquanto contava as minhas estórias e ouvia as dela, passada com um coiote que a cercou por mais de 2h enquanto ela montava guarda à minha espera, bebi alguns litros de água, isotônico, coca-cola e tudo o mais que apareceu em forma líquida na minha frente.

Depois disto, só um banho inesquecível e algumas horas de sono para voltar à realidade, já pensando no próximo deserto (e, quem sabe, desta vez com um GPS no fundo da mochila!).

Publicado originalmente no site de aventuras Webventure