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publicado em maio de 2000 no site da Wöllner Outdoor
Depois de ter ido duas vezes ao Deserto do Sahara, Deserto de Atacama, Deserto Patagônico, à área desértica do vulcão Irazu, na Costa Rica, eu andava pensando qual seria minha nova viagem para algum deserto, quando me deparei com uma pequena nota na revista Outdoor Magazine. Pela primeira vez na minha vida eu tomava conhecimento de uma corrida realizada nas escaldantes dunas e montanhas do Deserto do Sahara: a temível Marathon des Sables.
O excesso de esforço físico sempre me deu muito prazer. A busca de meus limites físicos e psicológicos sempre foi uma tônica em minha vida. Apesar da corrida não ser meu esporte principal eu a estou sempre praticando em busca de uma capacidade aeróbica e resistência que me deixem sempre pronto para enfrentar qualquer desafio que apareça quando eu menos esperar. Por isto, achei que não deveria perder esta oportunidade de voltar ao Sahara, mesmo em condições tão extremas.
Não foi difícil confirmar com os organizadores que eu seria o primeiro e único brasileiro a participar desta exigente corrida. Esta condição foi importante para conseguir o patrocínio, pois toda a mídia ficou interessada no que eu me propunha a fazer.
Planejado por Lauter Nogueira e Luciana Toscano, meus preparadores físicos, o treinamento aumentava dia após dia não só de intensidade como de volume, variando inclusive o tipo de piso em que eu corria. Séries de musculação totalmente direcionadas para o esforço que eu iria despender no Sahara foram fundamentais. Para que meu corpo não sucumbisse a uma contusão por excesso de treinamento, a fisioterapeuta Fernanda da Matta me acompanhava em sessões de alongamento e relaxamento. Além disso, a nutricionista Roberta Ogata mudou completamente minha rotina de alimentação fazendo com que eu comesse seis vezes por dia, seguindo aquelas complicadas listas de balanceamento entre proteínas, lipídeos e carboidratos.
Depois de meses de treinamento intenso, finalmente eu me encontrava no pequeno aeroporto de Ouarzazate, no Marrocos, onde vários ônibus nos esperavam para irmos para o primeiro acampamento. Como o percurso da corrida muda a cada ano e só é divulgado na véspera da largada, viajamos na direção leste por estradas extasiantes, sem ainda conhecermos nosso destino. As montanhas que cruzamos possuiam cor e formas singulares. A falta de vegetação produzia uma crueldade visual tão grande que, para os menos preparados, aquilo deveria estar representando o inferno. No meu caso era o reencontro com um dos lugares mais lindos que eu já havia conhecido.
Após cinco horas de viagem os ônibus pararam em algum ponto da estrada deserta. Depois de saltar com as mochilas ainda tivemos que esperar caminhões que levaram todos para o tão esperado Acampamento 1. Procurando uma vaga em alguma barraca no setor latino fiquei surpreso ao encontrar a equipe venezuelana, que havia chegado horas antes, com o meu lugar marcado na tenda deles. Semanas antes havíamos combinado isto através de e-mails, mas eu confesso que não me recordava mais. A recepção que eles me deram foi estrondosa. Porém, como já era noite, conversamos um pouco e todos fomos dormir.
O dia seguinte, véspera da primeira largada, era um dia muito importante para a logística de todo o rally. Os competidores deveriam comprovar aos fiscais que estavam levando todos os itens obrigatórios do regulamento, pois todos devíamos ser auto-suficientes em relação a tudo, exceto água. Éramos obrigados a carregar nas costas, enquanto corríamos, toda a comida dos sete dias, barras energéticas, casaco, faca, bússola, e tudo o mais que fosse necessário. Durante a manhã deste dia todos abriram suas mochilas mostrando seus equipamentos uns aos outros, tirando dúvidas, trocando experiências. Muitas decisões estratégicas foram mudadas nesta hora.
Depois de encerrada esta primeira, todos se tranqüilizaram um pouco. À noite, após um bonito discurso de Patrick Bauer, criador e diretor da prova, fomos aproveitar a última refeição que nos seria oferecida. A partir do dia seguinte seriam todas por nossa conta e responsabilidade. A auto-suficiência começaria...
Começar o dia após uma noite mal dormida causada pela ansiedade não é uma das melhores maneiras de correr 30 quilômetros entre montanhas, dunas, areia fofa e terra, com 10 kg nas costas. A manhã deste primeiro estágio iniciou-se às 5:30h com o nascer do sol. Antes das 6h os bérberes já estavam desmontando as tendas de cima dos competidores, tendo ou não alguém dormindo.
Após o desjejum com granola desidratada, arrumei a mochila e fiz uma série de alongamentos e aquecimento com os venezuelanos. Uma hora depois do previsto finalmente Patrick Bauer deu a largada da primeira etapa da 14a Marathon des Sables.
Enquanto o terreno que corríamos era de terra batida ou montanhas eu consegui controlar meu ritmo e, principalmente, minha excitação. Porém, umas duas horas depois da largada, ao começarmos uma via crucis sobre uma região de pequenas dunas, percebi que todos estavam parando de correr e começando a andar. Nesta hora eu não me contive e acelerei até atingir 175 pulsações por minuto, mantendo este ritmo por muito tempo tentando ultrapassar todos os competidores que, eu imaginava, haviam me passado enquanto eu mantivera a velocidade baixa. Enquanto corria não percebi o excesso que estava fazendo. Disseram mais tarde no acampamento que uma equipe médica registrou extra oficialmente uma temperatura de 58ºC nas dunas!
Assim que parei no Acampamento 2 comecei a sentir fortes dores abdominais causadas pelo excesso de ácido láctico no estômago. Por duas horas eu não consegui ficar quieto em nenhum lugar porque o enjôo persistia em qualquer posição que eu estivesse. Fiquei andando pelo acampamento fugindo da vista da equipe médica, que possuia poder para eliminar competidores sem condições clínicas de continuar o rally. Fui sentir fome para almoçar somente às 19h. Depois disso, cama.
O início da manhã do segundo dia foi um momento de grande arrependimento pelo excesso cometido na véspera. O corpo inteiro doía e a lembrança do que ainda havia pela frente nos próximos dias quase me deu um desânimo. Para piorar, a granola desidratada com morangos estava me enjoando. Fato que, aliás, me perseguiu pelo resto da competição. Nesta manhã quase não vi ninguém alongando-se em todo o acampamento, incluindo eu. O dia anterior havia sido muito puxado para todos.
Este segundo estágio, de 32 km, foi marcado por uma série de montanhas que tivemos de transpor, intercaladas por um terreno repleto de pequenas pedras que incomodavam muito os pés que já começavam a apresentar as primeiras bolhas. Como em praticamente todos os estágios, encontramos também areia fofa e pequenas dunas. Neste dia o calor foi sentido um pouco, apesar do ar extremamente seco que impede esta sensação.
Na chegada deste dia eu estava um pouco mais inteiro, apesar das câimbras. Quando me senti melhor tomei um "banho" com 700ml de água e fui à tenda da organização enviar e-mails para a família, os amigos e a imprensa. Mais ou menos às 19:30h voltei para minha tenda com a intenção de conversar e jantar, pois a fome já estava batendo. Porém todos já dormiam. Troquei a conversa por um jantar no centro do acampamento admirando o céu mais cheio de estrelas que eu já havia visto em minha vida.
Na terceira manhã era praticamente impossível ver alguém se alongando ou aquecendo. Claro que eu não atrapalhei as estatísticas. Passei meu início de manhã preparando um arroz com frango desidratado e arrumando a mochila para encontrar mais coisas desnecessárias com a intenção de joga-las fora e aliviar o peso, como eu já havia feito na véspera. Os pacotes de granola desidratada já haviam sido distribuídos, pois eu tinha certeza que o enjôo causado pelo esforço me impediria de comer alimentos doces até o último dia.
O início do terceiro percurso foi em um terreno muito acidentado que dificultava a tomada de velocidade com uma mochila ainda pesada. Antes de subir a primeira montanha, cruzamos um rio que possuia algumas pedras estratégicas que permitiam cruza-lo sem maiores dificuldades. A chegada deste dia, após 37 km, foi em um lago seco fossilizado.
Finalmente chegou o dia mais ansiosamente esperado e temido: o estágio dos 74 km. Pelas indicações recebidas vimos que este dia teria todos os tipos de terreno: areia fofa, terra batida, terra com pedrinhas, dunas e montanhas. Após comer um arroz com legumes oferecido por um dos membros da equipe venezuelana, e uma mosca que foi mais rápida que eu ao fechar a boca, iniciamos o dia trilhando quase sete quilômetros de pequenas dunas e areia fofa. Em seguida apareceu aquele horrível terreno com pedras por mais alguns quilômetros. Por algum tempo passamos entre montanhas e seguimos leitos de rio seco. Uma visão completamente destoante apareceu com a vila de Jdaid. Este pequeno vilarejo de umas vinte casas possui uma área cultivada em pleno deserto, aproveitando um rio subterrâneo que chega perto da superfície por alguns metros e aprofunda-se em seguida. Poucos minutos após deixar esta vila, tudo ao redor voltou a ser árido.
Por algumas horas, até o anoitecer, cruzamos mais um rio seco e algumas dunas. Após escurecer cheguei ao Posto de Controle 5, início do Erg Znaigui, uma área de grandes dunas. Após subir a primeira de uma série de dunas de 15 metros, vi um pequeno sinal luminoso ao longe. Quando subia a terceira duna em direção ao sinal luminoso, fui interceptado por dois competidores que diziam não ser aquela a direção correta. Depois de andar mais um pouco e ser seguido por outros competidores, constatamos que aquele sinal luminoso não era um marco mas um outro competidor perdido. A bússola então nos confirmou que realmente estávamos na direção errada. Aliás, muito errada. Nossa defasagem era de exatos 180 graus! Com isto perdi quase uma hora subindo e descendo dunas em uma direção e depois na contrária, quase sempre pelo lado mais frágil e escorregadio. Apesar da lanterna, é impossível enxergar onde está o início da crista e o lado mais sólido da duna, propício para caminhar.
Alguns quilômetros depois acabaram-se as dunas e iniciou-se novamente o terreno de pedrinhas. Ao avistar as luzes do acampamento quase não acreditei, mas era verdade. Eu havia sobrevivido aos famigerados 74 quilômetros!
O dia seguinte era continuação do quarto estágio já que o regulamento permitia um total de quarenta horas para se completar este percurso. Este dia, para os que completaram tudo até a noite anterior, serviu para descanso e cuidados com as bolhas dos pés.
Pensar que, após fazer 74 km, vai-se partir para mais 42 km não é dos pensamentos mais animadores. Mas se não tem outro jeito... Depois do tradicional desjejum de comida salgada iniciamos a penúltima etapa. O que diferenciava "um pouco" das outras eram os primeiros quatorze quilômetros de imensas dunas de 30 metros do Erg Chebbi, e em seguida o terreno com pedras. Este foi o dia que eu melhor acordei e rendi mais. Creio que a "síndrome da adaptação" já estava fazendo efeito.
Nesta última noite todos já consideravam a batalha ganha, pois no dia seguinte seriam apenas 14 quilômetros com uma entrada triunfal na cidade de Erfould. E não deu outra. Quando saquei a bandeira brasileira que carregava no short fui ovacionado pela multidão por mais de um quilômetro. Todos conheciam nossa bandeira brasileira.
Ao terminar esta rude competição eu já considerava a Marathon des Sables coisa do passado. Em minha mente os próximos projetos já fervilhavam...