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publicado em 08/10/01 na minha coluna no site de aventuras Webventure
A partir deste trecho, e por um bom tempo, apareceram umas cansativas subidas. Como se a trilha tivesse sido preparada de propósito por alguém com um grande senso de humor negro, ela aumentava consideravelmente a quantidade de areia fofa nas subidas, atrapalhando muito o desenvolvimento das passadas. Esta areia não era a que vemos normalmente em praias. Na verdade, eu diria que era uma areia "terrosa". Ou uma terra "areiosa", como devem preferir alguns. Na verdade tratava-se de uma terra bem fina, que se comportava como areia no momento da corrida, deixando os pés afundarem como se eu estivesse em uma duna do Sahara. E quanto mais surgiam subidas à minha frente, mais aparecia esta areia. Em alguns momentos era possível correr pela margem da trilha, onde havia uma vegetação similar a grama, tentando evitar afundar os pés. Mas após algumas poucas dezenas de metros surgia uma moita de espinhos na margem, o que me obrigava a voltar para a areia. E assim eu fui correndo, em um quase zig-zag, por bastante tempo.
Ao final desta seqüência de subidas eu fui premiado com uma vista fascinante de um lindo vale em que a predominância de verdes arbustos de espinhos, colocados eqüidistantes uns dos outros tal qual um latifúndio de monocultura, me obrigou a diminuir a velocidade para apreender toda aquela beleza que, naquele momento, era uma exclusividade minha, já que eu era o único a estar cruzando aquela trilha durante aqueles dias.
A trilha de descida para o vale serpenteava perigosamente a crista da montanha em cima de uma passarela de dois palmos de largura, obrigando mais do que nunca a manter a atenção completamente voltada para o caminho, sem poder continuar desfrutando a maravilhosa vista. Mas isto era recompensado pelo prazer que sinto ao correr em trilhas deste tipo, em que a falta de atenção pode resultar em um acidente de incalculáveis proporções.
Com um pouco mais de cinco horas e meia de corrida cheguei ao fundo do vale e, quando percebi, estava subindo a encosta de uma montanha. Como a trilha estava bem demarcada neste trecho continuei por mais algum tempo. Porém, após uma guinada violenta no caminho que deixou-me de costas para a direção que a trilha vinha mantendo há algum tempo, decidi que a melhor atitude a tomar naquele momento seria parar e me orientar.
Analisando o mapa concluí que, caso eu estivesse onde imaginava, não deveria estar subindo. Tendo ganho uma certa altura neste trecho da encosta, pude ter uma boa visibilidade de toda a região. E me chamou a atenção um leito de rio seco distante uns quinhentos metros à minha direita, seguindo paralelamente ao que eu imaginava ser a direção da trilha. Ao invés de olhar a bússola para orientar o mapa e me posicionar, simplesmente vi um leito de rio seco na mapa exatamente na mesma posição que eu estava vendo na realidade. A vontade de correr falou bem mais forte nesta hora e rapidamente fui convencido por ela (a vontade) de que os dois rios, no mapa e no mundo real, eram o mesmo.
Como eu já mencionei antes, não existe nada mais desagradável para um corredor de trilhas do que parar e se orientar. Estes preciosos minutos são suficientes para abaixar sua freqüência cardíaca e te tirar do steady state, o "piloto automático" que te mantém em velocidade "cruzeiro", com seu metabolismo suave, quase que anestesiado. E, para não atrapalhar este estado, eu tentava fazer tudo da maneira mais rápida possível. E, neste momento, baseado nesta ânsia em continuar correndo, tomei uma decisão que pareceu acertada na hora mas mostrou-se fatal algum tempo depois: seguir dentro do rio seco até o momento que haveria uma grande curva para norte, onde a trilha cortaria o rio. Neste local eu novamente seguiria pela trilha. Afinal, o rio que eu estava vendo era, sem dúvida alguma, o mesmo do mapa. Aqui, com esta opção que tomei, eu havia definido como seria o resto desta aventura...
Por um longo tempo eu corri dentro do leito do rio seco. Enquanto tentava imaginar como seria diferente a paisagem se este rio estivesse exercendo a sua função básica existencial, eu ia subindo e descendo grandes blocos de pedra carregados em remotas eras. Apesar destes obstáculos, a corrida estava fluindo bem. A diminuição do peso da mochila, causada pela ausência de grande parte da água e do isotônico que havia levado, facilitavam esta boa velocidade apesar de mais de seis horas de corrida sob um sol inclemente e sobre uma areia mais inclemente ainda.
Inesperadamente o rio fez uma curva e entrou em um tenebroso canyon. Um pouco distraído e deslumbrado com a beleza agressiva e opressora causada por duas paredes com algumas dezenas de metros, quase que completamente verticais e separadas por pouco mais de dez metros, continuei correndo por mais algum tempo imaginando que aquilo teria um fim tão rapidamente quanto seu início. Enganei-me. Após algumas curvas que saíam e voltavam para a direção correta, parei e tornei a olhar o mapa.
"O que é isto ?!", pensei. Não existia nenhuma elevação neste trecho do rio, segundo o mapa. E, com certeza, as paredes possuíam muito mais do que os oitenta pés da distância entre as curvas de nível no mapa. Como era fácil deduzir com esta simples constatação técnica, eu não estava no local que imaginava estar e, talvez, nem no rio que até então tinha certeza de estar correndo. Desta vez me rendi ao fato de que necessitava, realmente, parar com calma e entender onde eu estava e para onde deveria seguir. Sentei-me calmamente e abri o mapa no chão, apesar das muitas pedras neste local. Coloquei-me em seguida a tentar achar o trecho do rio em que aparecia abruptamente um canyon. Mas não conseguia encontrar. Olhava pacientemente cada centímetro quadrado mas, nada.
"Não acredito!", devo ter gritado repentinamente. A única possibilidade, em toda a região, de um rio que entra em um canyon, localizava-se muito distante de onde eu pensava estar. E, o que era pior, também distante da minha trilha ! Passado o primeiro impacto desta possível constatação, continuei tentando entender onde teria acontecido o erro que me desviou tanto do caminho correto, para reverter todo este processo. Percebi então que havia uma trilha, legendada como "primitive unmaintained trail", que cruzava a minha trilha original e seguia até o... adivinhem ... sim, o canyon!
Ataques Terroristas e Ônibus Pirata - parte I
É feita a Escolha - parte II
O rio Seco e o Canyon Fora do Lugar - parte III
Trilhas de Coiotes e Desidratação - parte IV