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Desafio no Sahara

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Desafio no Sahara

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publicado em 30/03/2000 no site de esportes de ação Rally Brasil

Estava eu elocubrando uma nova aventura que me mostrasse como a vida vale a pena, quando me deparei com uma notinha na Outdoor Magazine falando sobre a Marathon des Sables, no deserto do Sahara. Algo me disse, instantaneamente, que era aquilo que eu estava procurando: emoção e esforço físico, não necessariamente nesta ordem.

Depois do projeto de patrocínio aprovado, tive que encarar a "fúria" de meus preparadores físicos. Eles aumentavam dia a dia a intensidade e o volume dos treinos, que incluiam corrida e musculação, além de variar o tipo de piso em que eu corria. Muitos destes treinos foram executados com uma mochila pesando dez quilos!

Finalmente, depois de sete longos meses de sacrifício, embarquei para o Marrocos em um vôo de vinte e quatro horas até Ouarzazate. No aeroporto, vários ônibus nos esperavam para nos levar ao primeiro acampamento. Viajamos para o leste, por estradas extasiantes, sem ainda conhecer nosso destino. As montanhas que cruzamos possuíam cor e formas singulares que realçavam com a falta de vegetação.

Após cinco horas de viagem os ônibus pararam em plena estrada e tivemos que saltar com a bagagem. Quando menos esperávamos os ônibus partiram. Ficamos em pleno deserto, sem saber onde estávamos e para onde iríamos. Minutos depois chegaram alguns caminhões que levaram todos para o tão esperado "Acampamento 1". Minha primeira atitude foi procurar as barracas de língua espanhola, para reservar meu lugar. Fiquei surpreso ao encontrar a equipe venezuelana, que havia chegado horas antes, com o meu lugar marcado na tenda deles??!! Semanas antes havíamos combinado através de e-mails, mas eu confesso que não recordava!

O dia seguinte, véspera da primeira largada, foi um dia de muita euforia. À tarde, deveríamos comprovar aos fiscais que estávamos levando todos os itens obrigatórios no regulamento, como bússola, saco de dormir, isqueiro, faca, apito e kit de extração de veneno de cobras e escorpiões, entre outros (além de 2000 calorias diárias em alimentos, isotônicos e barras energéticas). Todos estes equipamentos deveriam ser carregados na mochila durante toda a corrida. Os competidores devem ser auto-suficientes em relação a tudo, exceto água, que era distribuída antes, durante e depois de cada corrida. Um total racionado de 9 litros diários por corredor, para suprir todas as necessidades de hidratação, lavagem de roupas, banho e cozinha.

Depois de encerrada esta primeira expectativa de uma série que viria a acontecer, todos se tranqüilizaram um pouco. À noite, após um discurso de Patrick Bauer, criador e diretor da prova, fomos jantar a última refeição que nos seria oferecida. A partir do dia seguinte a auto-suficiência começaria...

Iniciar o dia vindo de uma noite mal dormida não é uma das melhores maneiras de correr 30 quilômetros entre montanhas, dunas, areia fofa e terra, com 10 quilos nas costas. Mas não teve jeito. A insônia, que normalmente nem passa perto de mim, decidiu me acompanhar em quase todas as noites. Antes das 6:00 h, os bérberes já estavam desmontando as tendas dos competidores, tendo alguém dormindo ou não. Minutos depois voltavam recolhendo os tapetes que usávamos para forrar o chão tentando amenizar sua irregularidade e suas pedras. Depois de fazer o desjejum com granola desidratada e arrumar mais uma vez a mochila, iniciei uma série de alongamentos. Com uma hora de atraso, Patrick Bauer deu a largada da primeira etapa da 14a Marathon des Sables.

Apesar do Lauter (preparador físico) haver me convencido que eu deveria correr este primeiro dia com, no máximo, 155 batimentos cardíacos por minuto, eu não consegui obedecer por muito tempo. Enquanto o terreno que corríamos era de terra batida ou montanhas foi possível controlar minha velocidade e, principalmente, minha excitação. Porém, umas duas horas depois da largada, ao começarmos uma via crucis sobre uma região de pequenas dunas, percebi que todos estavam parando de correr e começando a andar.

Nesta hora eu não me contive e acelerei até 175 pulsações, mantendo este ritmo por muito tempo, tentando ultrapassar todos os competidores que , eu imaginava , haviam me passado enquanto eu estava "trotando" a 155. Enquanto corria não percebi o excesso que estava fazendo. Eu soube depois que uma equipe médica dando apoio na região das dunas registrou uma temperatura local de 58ºC!

Assim que cheguei no Acampamento 2 comecei a sentir fortes dores abdominais causadas pelo excesso de acidez no estômago. Por duas horas eu não consegui ficar quieto em nenhum lugar porque o enjôo aumentava. Fiquei andando pelo acampamento fugindo da vista da equipe médica, autorizada a eliminar competidores sem condições clínicas de continuar a prova. Fui almoçar, às 19h, e depois cama.

A manhã do segundo dia, foi um momento de grande arrependimento pelo excesso cometido na véspera. O corpo inteiro doía e a lembrança do que ainda havia pela frente nos próximos dias quase me deu um desânimo. Para piorar, a granola desidratada com morangos estava me enjoando. Fato que, aliás, me perseguiu pelo resto da competição. Nesta manhã houve muito menos alongamentos e aquecimento em todo o acampamento. Este segundo estágio foi marcado por uma série de montanhas que tivemos de transpor, intercaladas por terrenos pedregosos que incomodavam muito os pés, que já começavam a apresentar as primeiras bolhas. Na chegada, eu estava mais inteiro, porém apareceram algumas câimbras por algum tempo. Quando me senti melhor tomei um "banho" com 700 ml de água e fui à tenda de onde era possível mandar e-mails. Mais ou menos às 19:30 h, voltei para minha tenda com a intenção de conversar e jantar, pois a fome já estava batendo. Quando cheguei tive a surpresa de constatar que todos já estavam dormindo. Troquei a conversa por um jantar sozinho, admirando o céu mais cheio de estrelas que eu já havia visto em minha vida.

Na terceira manhã já era rara a visão de alguém se alongando ou aquecendo. Como já havia desistido das granolas desidratadas, enquanto cozinhava um arroz com frango, eu arrumava a mochila para encontrar mais coisas desnecessárias, com a intenção de joga-las fora e aliviar o peso nas costas. O início do terceiro percurso deu-se em um terreno muito acidentado que dificultava a tomada de velocidade com a mochila costas. Antes de subir uma montanha, cruzamos um rio que possuía algumas pedras estratégicas, permitindo cruza-lo sem maiores dificuldades. A chegada, foi em um lago seco, com um terreno quase fossilizado.

Finalmente chegou o dia mais esperado e temido: o estágio dos 74 km. Pelo road book, constatamos que este dia teria vários tipos de terreno. Após comer um arroz com legumes oferecido por um dos membros da equipe venezuelana, e uma mosca que foi mais rápida que eu ao fechar a boca, iniciamos o dia trilhando quase sete quilômetros de pequenas dunas e areia fofa. Em seguida apareceu aquele horrível terreno pedregoso por mais alguns quilômetros. Por algum tempo passamos entre montanhas e seguimos leitos de rio seco. Uma visão completamente destoante apareceu com a vila de Jdaid. Este pequeno vilarejo de 20 casas possui uma área cultivada em pleno deserto, aproveitando uma aproximação de um rio subterrâneo que chega perto da superfície e aprofunda-se em seguida. Poucos minutos após deixar esta vila, tudo ao redor voltou a ser árido.

Após escurecer, cheguei ao Posto de Controle 5, início do Erg Znaigui, uma área de imensas dunas. Após subir a primeira de uma série de dunas de 15 metros, vi um pequeno sinal luminoso mais à frente, que eu identifiquei como sendo um marco indicativo de direção. Quando cruzava a terceira duna em direção ao sinal luminoso, fui interceptado por dois competidores que diziam não ser aquela a direção correta. Depois de andar mais um pouco e ser seguido por outros competidores, constatamos que aquele sinal luminoso não era um marco mas outro competidor perdido. Neste momento acreditamos que seria necessário achar a bússola dentro da mochila e fazer um bom uso dela. Com esta brincadeira, perdi quase uma hora subindo e descendo dunas em uma direção e depois na contrária, quase sempre pelo lado mais frágil e escorregadio. Apesar da luminosidade da lanterna, é impossível enxergar onde está o início da crista e o lado mais sólido da duna, propício para caminhar. Alguns quilômetros depois acabaram-se as dunas e iniciou-se novamente o terreno pedregoso. Ao avistar as luzes do acampamento quase não acreditei, mas era verdade. Eu havia sobrevivido aos famigerados 74 quilômetros!

O dia seguinte, era continuação do quarto estágio para os que dormiram durante o percurso. O regulamento permitia um total de quarenta horas para se completar este trecho. Quem não parou para dormir, teve tempo de descansar e cuidar das bolhas dos pés (eu estava nessa).

Acordar pensando em fazer uma maratona logo após ter completado 74 km é algo completamente desanimador em outras circunstâncias. Neste caso, porém, eu sentia-me cada vez mais forte, conforme me disseram no início e eu não levei à serio. Depois do tradicional desjejum de comida salgada, o "não-alongamento" e o "não-aquecimento", partimos para uma maratona com os tradicionais quarenta e dois quilômetros.

O que diferenciava um pouco das maratonas tradicionais eram os primeiros quatorze quilômetros com imensas dunas de 30 metros, e em seguida o terreno pedregoso por mais vinte e oito quilômetros. Apesar do suposto stress causado pelo cansaço acumulado, corri muito bem neste dia, confirmando mais uma vez que a resposta de adaptação realmente existe.

Nesta última noite todos já consideravam a batalha ganha, pois no dia seguinte seriam apenas 14 quilômetros com uma entrada triunfal na cidade de Erfould. E não deu outra. Quando faltava cerca de dois quilômetros, saquei a bandeira brasileira que carregava no short e fui até a linha de chegada, aplaudido por uma multidão. Todos conheciam nossa bandeira brasileira.


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