publicado em junho de 99 na revista Outdoor Magazine
Sempre que pego uma revista nova, antes de me aventurar pelas grandes reportagens eu começo lendo o editorial, a seção de cartas e em seguida as colunas. Exatamente quando fazia isto na edição de agosto do ano passado da Outdoor Magazine deparei-me com uma nota de pé de página na coluna Outside News sobre a 14a edição da Marathon des Sables, no Deserto do Sahara. Como sempre fui atraído por desertos e o excesso de esforço físico me dá muito prazer, não havia ainda acabado de ler a notícia e já sentia a necessidade de descobrir mais detalhes sobre este rally humano. Para facilitar minha vida, o editor Sammy W. havia colocado na reportagem o endereço do site dos organizadores do evento. Em poucas horas de navegação pela internet eu já conhecia vários detalhes sobre a corrida e, principalmente, que eu seria o primeiro brasileiro em toda a história da Marathon des Sables.
Com a inscrição feita, só faltando alguns "detalhes" como o pagamento da taxa, a passagem aérea e os equipamentos, preparei um projeto de patrocínio e bati na porta do Superintendente da ANDIMA (Associação Nacional das Instituições do Mercado Aberto), a empresa em que trabalho como Analista de Suporte. Com seu apoio total junto à diretoria, vi o projeto ser aprovado integralmente em poucos dias. A partir daí comecei uma feroz briga contra o tempo para conseguir informações técnicas no exterior e treinar meu corpo para exceder os limites que até então eu conhecia.
Lauter Nogueira e Luciana Toscano, meus preparadores físicos, aumentavam dia a dia a intensidade e o volume dos treinos, que incluiam corrida e musculação, além de variar o tipo de piso em que eu corria. Para que meu corpo, que apesar de ter sempre estado bem condicionado fisicamente, não sucumbisse a uma contusão por excesso de treinamento, a fisioterapeuta Fernanda da Matta me acompanhava em sessões de alongamento e relaxamento. Além disso, a nutricionista Roberta Ogatta mudou completamente minha rotina de alimentação fazendo com que eu comesse até seis vezes por dia, seguindo aquelas complicadas listas de balanceamento entre proteínas, lipídeos e carboidratos.
Finalmente, depois de longos sete meses de muito sacrifício, embarquei para o Marrocos em um vôo que, inicialmente, faria três conexões até meu destino. Na véspera do embarque fui avisado que, devido a uma greve de pilotos em Madrid, meu vôo faria quatro conexões, com quatro aviões, quatro salas de espera e, pior de tudo, minha bagagem entraria e sairia de quatro compartimentos de carga até voltarmos a nos reencontrar. Não precisa ser adivinho para deduzir que ela não estava me esperando na esteira de bagagens do pequeno aeroporto de Ouarzazate.
Pensando no risco de deixar de correr a MdS por perda de equipamento, levei como bagagem de mão a mochila que continha quase todo o equipamento necessário e obrigatório para minha participação. Foram perdidos poucos itens na mochila que, se eu não estivesse em pleno deserto, seriam facilmente adquiridos em poucas horas de passeios por shoppings locais, o que não era o caso. Por sorte eu havia chegado com um dia e meio de antecedência ao encontro marcado com a Organização para a ida até o local do primeiro acampamento, o que me deu condições de passar um dia inteiro tentando achar um óculos com proteção contra raios ultravioleta A e B, um boné com proteção posterior, álcool sólido para o fogareiro, isqueiro,...
No dia seguinte, com praticamente todo o equipamento perdido recomprado, rumei para o aeroporto a fim de encontrar o staff da Organização e os outros competidores. Por desencargo de consciência procurei informações a respeito de minha mochila no setor em que eu havia feito a reclamação dois dias antes. Quando o funcionário me chamou para que eu o acompanhasse para retira-la, não acreditei. Ela trazia uma etiqueta indicando que havia chegado àquele local a poucos minutos. Se a reunião fosse uma hora mais cedo talvez eu não a encontrasse a tempo. Neste momento senti que minha estrela continuava brilhando.
No aeroporto vários ônibus nos esperavam para, finalmente, irmos para o primeiro acampamento. Viajamos em direção ao leste por estradas extasiantes, sem ainda conhecermos nosso destino. As montanhas que cruzamos possuiam cor e formas singulares. A falta de vegetação produzia uma crueldade visual tão grande que, para os menos preparados, aquilo deveria estar representando o inferno em todas as suas nuances. Para mim era o reencontro com um dos lugares mais lindos que eu já havia conhecido.
Após mais de cinco horas de viagem os ônibus pararam em plena estrada e fomos instruídos a saltar com a bagagem. Quando menos esperávamos os ônibus partiram e ficamos em pleno deserto sem saber onde estávamos nem para onde iríamos em seguida. Minutos depois chegaram alguns caminhões que, com algumas viagens, levaram todos para o tão esperado Acampamento 1. Seguindo as instruções recebidas no local, fui procurar uma das três tendas que eu poderia escolher para ser a minha durante toda a corrida, nos seis acampamentos. Fiquei surpreso ao encontrar a equipe venezuelana, que havia chegado horas antes, com o meu lugar marcado na tenda deles. Semanas antes havíamos combinado isto através de e-mails, mas eu confesso que não me recordava mais. A recepção que eles me deram foi estrondosa. Porém, como já era noite, conversamos um pouco e todos fomos dormir.
O dia seguinte, véspera da primeira largada, foi um dia muito importante para a logística de todo o rally. Neste dia à tarde devíamos comprovar aos fiscais do staff que estávamos levando todos os itens obrigatórios, além de 2000 calorias diárias em alimentos, isotônicos e barras energéticas. Ao final desta fiscalização entregamos nossa bagagem que seria levada ao hotel que retornaríamos na semana seguinte, permanecendo apenas com o que usaríamos durante os sete dias de corrida, visto que todos os competidores deviam ser auto-suficientes em relação a tudo, exceto água, que era distribuída antes, durante e depois de cada corrida em um total racionado de 9 litros diários por corredor para suprir todas as necessidades de hidratação, lavar roupas, tomar banho e cozinhar.
Durante a manhã deste dia todos abriram suas mochilas mostrando seus equipamentos uns aos outros, tirando dúvidas, trocando idéias. Muitas decisões estratégicas foram mudadas nesta hora. Outro detalhe importante é a noite anterior que passamos em condições idênticas ao período da corrida. Muitos optaram por não levar casaco pois o frio não era tão cruel quanto pensavam. Outros levaram calça comprida pois o frio era mais cruel do que imaginavam. Depois de encerrada esta primeira expectativa de uma série que viria a acontecer, todos se tranqüilizaram um pouco. À noite, após um bonito discurso de Patrick Bauer, criador e diretor da prova, fomos jantar a última refeição que nos seria oferecida. A partir do dia seguinte seriam todas por nossa conta e responsabilidade. A auto-suficiência começaria... Começar o dia vindo de uma noite mal dormida não é uma das melhores maneiras de correr 30 quilômetros entre montanhas, dunas, areia fofa e terra, com 10,5 quilos nas costas. Mas não teve jeito. A insônia, que normalmente nem passa perto de mim, decidiu me acompanhar em quase todas as noites. A manhã deste primeiro estágio iniciou-se às 5:30h com o nascer do sol. Antes das 6h os bérberes já estavam desmontando as tendas de cima dos competidores, tendo alguém dormindo ou não. Minutos depois voltavam recolhendo os tapetes que usávamos para forrar o chão tentando amenizar sua irregularidade e suas pedras.
Depois de fazer o desjejum com granola desidratada e arrumar pela enésima vez a mochila, iniciei uma série de alongamentos e em seguida o aquecimento. Com uma hora de atraso, finalmente Patrick Bauer deu a largada da primeira etapa da 14a Marathon des Sables. Seguindo ordens expressas do Lauter, eu deveria correr este primeiro dia com, no máximo, 155 batimentos cardíacos por minuto. Dito e feito. Ou quase. Enquanto o terreno que corríamos era de terra batida ou montanhas eu consegui controlar minha velocidade e, principalmente, minha excitação. Porém, umas duas horas depois da largada, ao começarmos uma via crucis sobre uma região de pequenas dunas, percebi que todos estavam parando de correr e começando a andar. Nesta hora eu não me contive e acelerei até 175 pulsações, mantendo este ritmo por muito tempo tentando ultrapassar todos os competidores que, eu imaginava, haviam me passado enquanto eu estava "trotando" a 155. Enquanto corria não percebi o excesso que estava fazendo. Disseram mais tarde no acampamento que uma equipe médica que dava apoio na região das dunas registrou extra oficialmente uma temperatura local de 58ºC!
Assim que parei no Acampamento 2 comecei a sentir fortes dores abdominais causadas pelo excesso de ácido láctico no estômago. Por duas horas eu não consegui ficar quieto em nenhum lugar porque o enjôo aumentava. Fiquei andando pelo acampamento fugindo da vista da equipe médica, que possuia poder para eliminar competidores sem condições clínicas de continuar o rally. Fui sentir fome para almoçar somente às 19h. Depois disso, cama.
O início da manhã do segundo dia foi um momento de grande arrependimento pelo excesso cometido na véspera. O corpo inteiro doía e a lembrança do que ainda havia pela frente nos próximos dias quase me deu um desânimo. Para piorar, a granola desidratada com morangos estava me enjoando. Fato que, aliás, me perseguiu pelo resto da competição. Nesta manhã houve muito menos alongamento e aquecimento, não só de minha parte como também de quase todo o acampamento.
Este segundo estágio foi marcado por uma série de montanhas que tivemos de transpor, intercaladas por um terreno cravejado de pequenas pedras que incomodavam muito os pés que já começavam a apresentar as primeiras bolhas. Como em praticamente todos os estágios, encontramos também areia fofa e pequenas dunas. Neste dia o calor foi sentido um pouco, apesar do ar extremamente seco que impede esta sensação.
Um dos prazeres que existe nesta competição é a visão ao longe de um Posto de Controle. Ele representa mais uma etapa cumprida no dever daquele dia além, é claro, de haver uma garrafa de água fresca te esperando e, se você quiser, uma sombra por alguns minutos. Às vezes dá até para um rápido bate-papo com alguém do staff, um corredor ou um jornalista.
Na chegada deste dia eu estava um pouco mais inteiro, porém senti algumas câimbras por algum tempo. Quando me senti melhor tomei um "banho" com 700ml de água e fui à tenda de onde era possível mandar e-mails. Mais ou menos às 19:30h voltei para minha tenda com a intenção de conversar e jantar, pois a fome já estava batendo. Quando cheguei tive a surpresa de constatar que todos já estavam dormindo. Troquei a conversa por um jantar admirando o céu mais cheio de estrelas que eu já havia visto em minha vida.
Na terceira manhã já era rara a visão de alguém se alongando ou aquecendo. Claro que eu não atrapalhei as estatísticas. Passei meu início de manhã preparando um arroz com frango desidratado e arrumando a mochila para encontrar mais coisas desnecessárias com a intenção de joga-las fora e aliviar o peso nas costas, como eu já havia feito na véspera. Neste momento os pacotes de granola desidratada já haviam sido distribuídos, pois eu tinha certeza que o enjôo causado pelo esforço me impediria de comer alimentos doces até o final do rally.
O início do terceiro percurso foi em um terreno muito acidentado que dificultava a tomada de velocidade com uma mochila pesada nas costas. Antes de subir uma montanha, cruzamos um rio que possuia algumas pedras estratégicas que permitiam cruza-lo sem maiores dificuldades. A chegada deste dia foi em um lago seco com um terreno quase fossilizado.
Finalmente chegou o dia mais ansiosamente esperado e temido: o estágio dos 74 km. Pelas indicações recebidas vimos que este dia teria de tudo um pouco. Após comer um arroz com legumes oferecido por um dos membros da equipe venezuelana, e uma mosca que foi mais rápida que eu ao fechar a boca, iniciamos o dia trilhando quase sete quilômetros de pequenas dunas e areia fofa. Em seguida apareceu aquele horrível terreno com pedras por mais alguns quilômetros. Por algum tempo passamos entre montanhas e seguimos leitos de rio seco. Uma visão completamente destoante apareceu com a vila de Jdaid. Este pequeno vilarejo de 20 casas possui uma área cultivada em pleno deserto, aproveitando uma aproximação de um rio subterrâneo que chega perto da superfície e aprofunda-se em seguida. Poucos minutos após deixar esta vila, tudo ao redor voltou a ser árido.
Por algumas horas, até o anoitecer, cruzamos mais um rio seco e algumas dunas. Após escurecer cheguei ao Posto de Controle 5, início do Erg Znaigui, uma área de dunas. Após subir a primeira de uma série de dunas de 15 metros, vi um pequeno sinal luminoso algumas dunas depois. Quando subia a terceira duna em direção ao sinal luminoso, fui interceptado por dois competidores que diziam não ser aquela a direção correta. Depois de andar mais um pouco e ser seguido por outros competidores, constatamos que aquele sinal luminoso era não um marco mas um outro competidor perdido. Neste momento acreditamos que seria necessário achar a bússola dentro da mochila e fazer um bom uso dela. Em resumo, perdi quase uma hora subindo e descendo dunas em uma direção e depois na contrária, quase sempre pelo lado mais frágil e escorregadio. Apesar da lanterna, é impossível enxergar onde está o início da crista e o lado mais sólido da duna, propício para caminhar. Alguns quilômetros depois acabaram-se as dunas e iniciou-se novamente o terreno de pedrinhas. Ao avistar as luzes do acampamento quase não acreditei, mas era verdade. Eu havia sobrevivido aos famigerados 74 quilômetros!
O dia seguinte era continuação do quarto estágio já que o regulamento permitia um total de quarenta horas para se completar este percurso. Este dia para os que completaram tudo até a noite anterior serviu para descanso e cuidados com as bolhas dos pés.
Acordar pensando que irá fazer uma maratona logo após ter completado 74 km é algo completamente desanimador em circunstâncias outras. Neste caso, eu estava sentindo-me cada vez mais forte, conforme me disseram no início que aconteceria e eu não levei à serio. Depois do tradicional desjejum de comida salgada, o não alongamento e o não aquecimento, partimos para uma maratona com os tradicionais 42 quilômetros. O que diferenciava "um pouco" das outras eram os primeiros quatorze quilômetros de imensas dunas de 30 metros, e em seguida o terreno com pedras. Este foi o dia que eu melhor acordei e rendi mais. Creio que a "síndrome da adaptação" já estava fazendo efeito.
Nesta última noite todos já consideravam a batalha ganha, pois no dia seguinte seriam apenas 14 quilômetros com uma entrada triunfal na cidade de Erfould. E não deu outra. Quando saquei a bandeira brasileira que carregava no short fui ovacionado por uma multidão por mais de um quilômetro. Todos conheciam nossa bandeira brasileira.
Ao terminar este rally eu não pensava mais na Marathon des Sables, coisa do passado. Já tinha em mente os próximos projetos...