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publicado em 22/02/2004 na coluna "Aventure-se" do Jornal do Brasil
Em 2001 eu planejei dois desafios: ser o primeiro brasileiro a correr no Deserto de Mojave e completar a primeira volta correndo em torno da Ilha Grande.
Na ida para o Mojave minha aventura começou mais cedo. Em pleno vôo entre Houston e Los Angeles as torres gêmeas foram atacadas e todos os aviões que voavam em território americano receberam ordem para aterrisar no primeiro aeroporto que encontrassem. Resultado: eu e minha equipe de apoio (Odette, minha mulher) fomos sumariamente largados em El Paso, na fronteira com o México, sem qualquer previsão de algo acontecer. Juntos com outros brasileiros na mesma situação conseguimos chegar a Los Angeles em um ônibus-pirata, com apenas um dia de atraso no cronograma.
Depois de mais uma aventura para conseguir um carro, rumamos para o deserto. Já no Joshua Tree National Park, onde havia planejado fazer meu desafio, usei o resto do dia para conhecer o início e o final da trilha, além dos dois pontos onde seria possível chegar de carro e Odette me esperaria com água e sanduíche. Tudo perfeito para amanhã!
No dia seguinte parti às oito horas da manhã, confirmando o primeiro encontro para meio-dia. As primeiras horas de corrida foram extremamente deliciosas. O piso, apesar de areia na maior parte, atrapalhava pouco o desenvolvimento. O calor estava suportável e de vez em quando ventava um pouco para refrescar. O principal, porém, era o visual. Para quem adora desertos como eu, o Mojave é fascinante, pois difere bastante do “modelo tradicional” de infindáveis dunas de areia. Lá há vegetação o tempo inteiro. Claro que rala, com os arbustos separados uns dos outros. Mas há!
Quatro horas depois de iniciada a corrida reparei que não havia chegado ao ponto de encontro. Que chato, calculei mal minha velocidade média. Mas não tem problema. Daqui a pouco estou lá.
Após duas, três, quatro horas de atraso e várias conferidas no mapa e na bússola, concluí que havia entrado em alguma bifurcação errada e me encontrava exatamente em qualquer lugar do planeta, menos onde imaginava estar. Os pontos de referência naturais, como picos e rios secos, só me faziam enganar mais, já que todos eles se pareciam.
Quando anoiteceu eu já havia decidido encontrar a saída desta “roubada” em que eu havia entrado, usando o método de orientação por força bruta. Isto simplesmente significava que eu seguiria a mesma direção o tempo inteiro, sem qualquer desvio. Na prática isto representava subir e descer picos, entrar em crateras, passar por plantações de espinhos, e coisas do gênero.
Como eu havia levado comida e água apenas para o primeiro trecho (além de uma pequena reserva estratégica), o excesso de esforço e a secura do ar já haviam me desidratado há algum tempo. E as tonteiras começaram a acontecer.
Devagar e sempre, subindo e descendo infindáveis picos, cruzando espinhais, mas mantendo sempre a calma que a experiência destes anos me proporcionou, finalmente cheguei às cinco horas da manhã onde Odette me aguardava preocupadíssima desde o meio-dia.