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publicado em março de 2000 no site da Hi-Tec
Eu sempre fui fascinado por desertos. Ao Sahara eu já havia ido duas vezes. A primeira foi quando rodei o Marrocos inteiro, entrando no deserto por todas as "portas". Na segunda foi quando estive no Egito. Conheci o Sahara ao longo do Nilo, chegando quase à fronteira com o Sudão.
O deserto patagônico também é inesquecível. Sem dunas, como as do Sahara, mas apenas um piso duro e pedregulhoso. E, claro, aquele silêncio que atrai quem quer que se entregue a ele. Já o deserto de Atacama possui a magia de todo deserto somada à visão de vulcões com neve eterna e que ainda exalam fumaça. Além disto possui o maior salar do mundo, que faz com que a região seja a mais seca de todos os desertos devido à absorção total da umidade do ar pelo sal.
Minha busca por desertos é tão grande que, na Costa Rica, referência mundial para parques nacionais em florestas, eu não me dei por satisfeito até encontrar um mini "ambiente desértico" na entrada da cratera do vulcão Irazu.
Pois bem. Quando lia descontraidamente um exemplar da Outdoor Magazine deparei-me com uma nota de pé de página sobre a 14a edição da Marathon des Sables, no deserto do Sahara. Como o excesso de esforço físico sempre me dá muito prazer, sem contar que uma nova ida ao Sahara sempre é bem vinda, não havia ainda acabado de ler a notícia e já sentia a necessidade de descobrir mais detalhes sobre este rally humano. Em poucas horas de navegação pela internet eu já conhecia todos os detalhes sobre a corrida e, principalmente, que eu seria o primeiro brasileiro em toda a história da Marathon des Sables.
Com um patrocínio completo, comecei uma feroz briga contra o tempo para conseguir informações técnicas no exterior e treinar meu corpo para exceder os limites que até então eu conhecia.
Lauter Nogueira e Luciana Toscano, meus preparadores físicos, aumentavam dia a dia a intensidade e o volume dos treinos, que incluiam corrida em vários tipos de piso e musculação. Para que meu corpo, que apesar de ter sempre estado bem condicionado fisicamente, não sucumbisse a uma contusão por excesso de treinamento, a fisioterapeuta Fernanda da Matta me acompanhava em sessões de alongamento e relaxamento. Além disso, a nutricionista Roberta Ogata mudou completamente minha rotina de alimentação fazendo com que eu comesse seis vezes por dia, seguindo aquelas complicadas listas de balanceamento entre proteínas, lipídeos e carboidratos.
Finalmente, depois de longos sete meses de muito sacrifício, embarquei para o Marrocos em um vôo de quatro conexões em vinte e quatro horas. No aeroporto de Ouarzazate vários ônibus nos esperavam para deixar-nos no primeiro acampamento, que não tínhamos a menor idéia de onde seria, pois o percurso é secreto até a véspera da largada. Viajamos em direção ao leste por estradas extasiantes, sem conhecermos nosso destino. As montanhas que cruzamos possuiam cor e formas singulares. A falta de vegetação produzia uma crueldade visual tão grande que, para os menos preparados, aquilo deveria estar representando o inferno em todas as suas nuances. Para mim era o reencontro com um dos lugares mais lindos que eu já havia conhecido.
Após mais de cinco horas de viagem os ônibus pararam em plena estrada e fomos instruídos a saltar com a bagagem. Quando menos esperávamos, os ônibus partiram e ficamos em pleno deserto sem saber onde estávamos nem para onde iríamos em seguida. Minutos depois chegaram alguns caminhões que, em algumas viagens, levaram todos para o tão esperado Acampamento 1. Seguindo as instruções recebidas no local, fui procurar uma das três tendas que eu poderia escolher para que seu número fosse minha referência durante toda a corrida, nos seis acampamentos. Fiquei surpreso ao encontrar a equipe venezuelana que havia chegado horas antes, com o meu lugar marcado na tenda deles. Semanas antes havíamos combinado isto através de e-mails, mas eu confesso que não me recordava mais. A recepção que eles me deram foi estrondosa. Porém, como já era noite, conversamos um pouco e fomos todos dormir.
O dia seguinte, véspera da primeira largada, foi um dia muito importante para a logística de todo o rally. Neste dia à tarde devíamos comprovar aos fiscais do staff que estávamos levando todos os itens obrigatórios, além de duas mil calorias diárias em alimentos, isotônicos e barras energéticas. Ao final desta fiscalização entregamos nossa bagagem que seria levada ao hotel que retornaríamos na semana seguinte, permanecendo apenas com o que usaríamos durante os sete dias de corrida, visto que todos os competidores deviam ser auto-suficientes em relação a tudo, exceto água. Ela era distribuída antes, durante e depois de cada corrida em um total racionado de nove litros diários por corredor para suprir todas as necessidades de hidratação, lavagem de roupas, banho e preparação de alimentos.
Durante a manhã deste dia todos abriram suas mochilas mostrando seus equipamentos uns aos outros, tirando dúvidas, trocando idéias. Muitas decisões foram alteradas nesta hora. Outro detalhe importante na estratégia é a noite anterior que passamos em condições idênticas ao que sentiríamos no período de corrida. Muitos optaram por não levar casaco pois o frio não era tão cruel quanto pensavam. Outros levaram calça comprida pois o frio era mais cruel do que imaginavam.
Depois de encerrada esta primeira expectativa de uma série que viria a acontecer, todos se tranqüilizaram um pouco. À noite, após um bonito discurso de Patrick Bauer, criador e diretor da prova, fomos jantar a última refeição que nos seria oferecida. A partir do dia seguinte seriam todas por nossa conta e responsabilidade. A auto-suficiência começaria... Iniciar o dia vindo de uma noite mal dormida não é uma das melhores maneiras de correr trinta quilômetros entre montanhas, dunas, areia fofa e terra, com dez quilos nas costas. Mas não teve jeito. A insônia, que normalmente nem passa perto de mim, decidiu me acompanhar em quase todas as noites. A manhã deste primeiro estágio iniciou-se às 5:30 h com o nascer do sol. Antes das 6 h os bérberes já estavam desmontando as tendas de cima dos competidores, estando alguém dormindo ou não. Minutos depois voltavam recolhendo os tapetes que forravam o chão para tentar amenizar a imensa quantidade de pedrinhas. Depois de fazer o desjejum com granola desidratada e arrumar pela enésima vez a mochila, iniciei uma série de alongamentos e aquecimento. Com uma hora de atraso, finalmente Patrick Bauer deu a largada da primeira etapa da 14a Marathon des Sables.
Seguindo ordens expressas do Lauter, eu deveria correr este primeiro dia com, no máximo, 155 batimentos cardíacos por minuto. Dito e feito. Ou quase. Enquanto o terreno que corríamos era de terra batida ou montanhas eu consegui controlar minha velocidade e, principalmente, minha excitação. Porém, duas horas depois da largada, ao começarmos uma via crucis sobre uma região de pequenas dunas, percebi que todos estavam parando de correr e começando a andar. Nesta hora eu não me contive e acelerei até 175 pulsações, mantendo este ritmo por muito tempo, tentando ultrapassar todos os competidores que, eu imaginava, haviam me passado enquanto eu estava "trotando" a 155. Enquanto corria não percebi o excesso que estava fazendo. Disseram mais tarde no acampamento que uma equipe médica que dava apoio na região das dunas registrou extra oficialmente uma temperatura local de 58ºC!
Assim que parei no Acampamento 2 comecei a sentir fortes dores abdominais causadas pelo excesso de ácido láctico no estômago. Por duas horas eu não consegui ficar quieto em nenhum lugar porque o enjôo aumentava. Fiquei andando pelo acampamento fugindo da equipe médica, que possuia poder para eliminar competidores sem condições clínicas de continuar o rally. Fui sentir fome para almoçar somente às 19h. Depois disso, cama.
O início da manhã do segundo dia foi um momento de grande arrependimento pelo excesso cometido na véspera. O corpo inteiro doía e a lembrança do que ainda havia pela frente nos próximos dias quase me deu um desânimo. Para piorar, a granola desidratada com morangos estava me enjoando. Fato que, aliás, me perseguiu pelo resto da competição. Nesta manhã houve muito menos alongamento e aquecimento, não só de minha parte como também de quase todo o acampamento.
Este segundo estágio, de trinta e dois quilômetros, foi marcado por uma série de montanhas que tivemos de transpor, intercaladas por um terreno cravejado de pequenas pedras que incomodavam muito os pés que já começavam a apresentar as primeiras bolhas. Como em praticamente todos os estágios, encontramos também areia fofa e pequenas dunas. Neste dia o calor foi mais forte, apesar do ar extremamente seco que impede esta sensação.
Um dos prazeres que existe nesta competição é a visão ao longe de um Posto de Controle. Ele representa mais uma etapa cumprida além, é claro, de haver uma garrafa de água fresca te esperando e, se você quiser, uma sombra por alguns minutos. Às vezes dá até para um rápido bate-papo com alguém do staff, um corredor ou um jornalista.
Na chegada deste dia eu estava um pouco mais inteiro, porém senti algumas câimbras por algum tempo. Quando me senti melhor tomei um "banho" com 700ml de água (!) e fui à tenda de onde era possível mandar e-mails para o Brasil. Mais ou menos às 19:30h voltei para minha tenda com a intenção de conversar e jantar, pois a fome já estava batendo. Quando cheguei tive a surpresa de constatar que todos já estavam dormindo. Troquei a conversa por um jantar admirando o céu mais cheio de estrelas que eu já havia visto em todas as minhas andanças pelo mundo.
Na terceira manhã de competição já era rara a visão de alguém se alongando ou aquecendo. Claro que eu não atrapalhei as estatísticas. Passei meu início de manhã preparando um arroz com frango desidratado e arrumando a mochila para encontrar mais coisas desnecessárias com a intenção de joga-las fora e aliviar o peso nas costas, como eu já havia feito na véspera. Neste momento os pacotes de granola desidratada já haviam sido distribuídos, pois eu tinha certeza que o enjôo causado pelo esforço me impediria de comer alimentos doces até o final do rally.
O início do terceiro percurso, de trinta e sete quilômetros, foi em um terreno muito acidentado que dificultava a tomada de velocidade com uma mochila pesada nas costas. Antes de subir uma montanha, cruzamos um rio que possuia algumas pedras estratégicas que permitiam cruza-lo sem maiores dificuldades. A chegada deste dia foi em um lago seco com um terreno quase fossilizado.
Finalmente chegou o dia mais ansiosamente esperado e temido: o estágio dos 74 km. Pelas indicações recebidas vimos que este dia teria de tudo um pouco. Após comer um arroz com legumes oferecido por um dos membros da equipe venezuelana, e uma mosca que foi mais rápida que eu ao fechar a boca, iniciamos o dia trilhando quase sete quilômetros de pequenas dunas e areia fofa. Em seguida apareceu aquele horrível terreno com pedregulhos por mais alguns quilômetros. Durante algum tempo passamos por entre montanhas e seguimos leitos de rio seco. Uma visão completamente destoante apareceu com a vila de Jdaid. Este pequeno vilarejo de 20 casas possui uma área cultivada em pleno deserto, aproveitando uma aproximação de um rio subterrâneo que chega perto da superfície e aprofunda-se em seguida. Poucos minutos após deixar esta vila tudo ao redor voltou a ser árido.
Por algumas horas, até o anoitecer, cruzamos mais um rio seco e algumas dunas. Após escurecer cheguei ao Posto de Controle 5, início do Erg Znaigui, uma imensa área de dunas. Após subir a primeira de uma série de dunas de 15 metros, vi um pequeno sinal luminoso algumas dunas à frente. Quando subia a terceira duna em direção ao sinal luminoso, fui interceptado por dois competidores que diziam não ser aquela a direção correta. Depois de andar mais um pouco e ser seguido por outros competidores, constatamos que aquele sinal luminoso era não um marco mas um outro competidor perdido. Neste momento acreditamos que seria necessário achar a bússola dentro da mochila e fazer um bom uso dela. Nem acreditamos quando constatamos que estávamos exatamente cento e oitenta graus defasados da real direção. Em resumo, perdemos quase uma hora subindo e descendo dunas na direção contrária à certa.
De volta à direção correta, iniciei uma marcha mais rápida pelas dunas visando recuperar o tempo perdido. Apesar da lanterna, é impossível enxergar onde está o início da crista e o lado mais sólido da duna, propício para caminhar. Isto significa que subia e descia pelo lado que estivesse na direção apontada pela bússola e pelas estrelas, sem tentar procurar o "caminho das pedras". Alguns quilômetros depois acabaram-se as dunas e iniciou-se novamente o terreno de pedrinhas. Ao avistar as luzes do acampamento quase não acreditei, mas era verdade. Eu havia sobrevivido aos famigerados setenta e quatro quilômetros!
O dia seguinte era continuação do quarto estágio já que o regulamento permitia um total de quarenta horas para se completar este percurso. Quem houvesse completado todo o percurso até a noite anterior, sem ter parado para dormir, poderia descansar e cuidar das bolhas dos pés.
Acordar pensando que se irá fazer uma maratona logo após ter completado 74 km é algo completamente desanimador em circunstâncias outras. Neste caso, eu estava sentindo-me cada vez mais forte, conforme me garantiram que aconteceria e eu não levei à serio. Depois do tradicional desjejum de comida salgada, o não-alongamento e o não-aquecimento, partimos para uma maratona com os famosos quarenta e dois quilômetros. O que diferenciava "um pouco" das outras maratonas eram os primeiros quatorze quilômetros de imensas dunas de 30 metros, e em seguida o terreno com pedras. Este foi o dia que eu melhor acordei e rendi mais. Creio que a "síndrome da adaptação" já estava fazendo efeito.
Nesta última noite todos já consideravam a batalha ganha, pois no dia seguinte seriam apenas dez quilômetros com uma entrada triunfal na cidade de Erfould. E não deu outra. Quando saquei a bandeira brasileira que carregava no short fui ovacionado por uma multidão durante mais de um quilômetro. Todos conheciam a bandeira brasileira !
Ao terminar este rally eu não pensava mais nos duzentos e vinte e cinco quilômetros corridos na Marathon des Sables, coisa do passado. Já tinha em mente os próximos projetos...