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publicado em junho de 99 na revista de corridas Contra-Relógio
Esta aventura começou em agosto de 98 com uma pequena nota na revista Outdoor Magazine. Em poucas linhas o editor descrevia a Marathon des Sables com toda a sua dureza. Pois bem, as suas poucas palavras foram suficientes para despertar minha curiosidade. Imediatamente entrei no site oficial do evento e naveguei durante horas vendo as fotos, lendo artigos de veteranos, o regulamento, mapas, links de fabricantes de equipamentos, resultados de anos anteriores e os fatos interessantes que aconteceram. Enquanto sonhava com o que estava vendo pensava que nunca havia ouvido falar desta prova. Curioso sobre este fato, escrevi um e-mail para a organização da prova perguntando sobre as participações brasileiras anteriores, afinal esta seria a 14.edição e eu não conseguia imaginar a possibilidade de nenhum brasileiro te-la feito antes. Qual não foi minha surpresa quando a organizadora, Mary Gadams, confirmou-me que, além de nenhum brasileiro ter participado antes, não havia até aquele momento nenhuma inscrição vinda daqui. Na mesma hora escrevi-lhe avisando que já estava inscrevendo-se o primeiro brasileiro.
Eu sempre gostei e pratiquei atividades outdoor. A sensação de liberdade que isto me proporciona é indiscritível e insubstituível. Além de correr desde 14 anos (estou com 40), pratico montanhismo e caminhadas por praias há incontáveis anos. Junto com esta liberdade, a adrenalina tem sido cada vez mais minha companheira. Isto me levou a praticar paralelamente o mergulho em apnéia e autônomo (com cilindros de ar) e escalada em rocha. Outro componente de minha personalidade é a busca do novo. Há pouco tempo atrás, lendo uma reportagem sobre a Costa Rica me empolguei com uma foto de uma ponte no meio da mata servindo de base para saltos de bungee jump. Na primeira oportunidade que tive, estava lá saltando de 87m de altura sobre um rio. Atualmente estou me organizando para fazer um curso de paraquedismo.
Com a inscrição feita "só faltava" o dinheiro da inscrição, dos equipamentos, da passagem, do treinamento, da fisioterapeuta, da nutricionista, dos suplementos nutricionais, etc, etc, etc, ... . A única saída era conseguir um patrocínio. Depois de alguns dias rabiscando saiu um projeto bom o suficiente para conseguir o apoio total de meu Superintendente e, em seguida, do Presidente e da Diretoria. A empresa em que trabalho, ANDIMA - Associação Nacional das Instituições do Mercado Aberto, é um entidade sem fins lucrativos que nunca havia apoiado nenhum projeto semelhante. Quase isto foi motivo para que eu não tentasse, não fosse alguns apoios encorajadores. E deu certo. Sorte minha que eu estava sentado quando recebi um telefonema do Superintendente dias depois que começava com a seguinte frase: "Agora se preocupe apenas em treinar para completar esta prova porque o resto está resolvido".
O passo seguinte foi descobrir que eu precisava de preparadores físicos com experiência para entender as características desta prova tão peculiar e moldar-me à ela. A sorte que sempre me acompanha colocou Lauter Nogueira e Luciana Toscano na minha rota, através do Dr.Leonardo Metsavath. Em outros lances de sorte apareceram a nutricionista Dra. Roberta Ogatta e a fisioterapeuta Fernanda da Matta. Esta equipe foi fundamental para o sucesso deste projeto.
Esta prova tem como característica a auto-suficiência quase total. Durante sete dias nós corremos e caminhamos pelo deserto do Sahara carregando uma mochila com todo o equipamento necessário para nossa sobrevivência, isto é, comida, barras energéticas e isotônico para os sete dias, fogareiro, combustível, agasalho, protetor solar, óculos de sol, saco de dormir, além de vários itens obrigatórios como bússola, espelho sinalizador, foguete, apito, lençol aluminizado de sobrevivência, pílulas de sal e um kit de extração de veneno de cobras e escorpiões. Isto mesmo, um kit de extração de veneno de cobras e escorpiões que, ainda bem, voltou lacrado para o Brasil. Toda esta tralha estava pesando no primeiro dia nada menos que dez quilos! Este foi o primeiro erro de uma série na minha tão bem planejada estratégia. Desde o primeiro momento em que pisei no Sahara até o momento da volta eu não deixei de aprender e adquirir experiência um só minuto. Minhas fontes de conhecimentos aqui no Brasil tinham sido os e-mails de veteranos americanos e europeus e uma intensa troca de idéias com amigos cheios de boa vontade mas, como eu, sem qualquer conhecimento deste tipo de prova.
A Marathon des Sables é um rally idealizado pelo francês Patrick Bauer em 1986 e que acontece todo ano em algum ponto do Marrocos divulgado somente na véspera do primeiro dia da competição. As distâncias diárias das provas variam a cada ano em função das possibilidades que a região escolhida apresenta para montar os acampamentos. Este ano os seis estágios foram, nesta ordem: 30km, 32,5km, 37km, 74km (podendo fazer em 40 horas), 42km e 14km. A cada estágio há uma linha de largada em um acampamento e uma de chegada no acampamento seguinte. Após cada corrida você tem todo o tempo livre para cozinhar, lavar alguma roupa, enganar um banho, cuidar das bolhas nos pés, rever os equipamentos e dormir. A sua cota diária de água é de nove litros, distribuídos metade durante a corrida e a outra metade na chegada, que deve ser racionada até a manhã do dia seguinte.
Um dos erros estratégicos que eu cometi foi calcular distâncias e tempos como se estivesse correndo em Copacabana ou na Barra. Apesar de ter colocado quase 50% de folga em cada tempo, a assustadora diferença entre a teoria e a prática minava dia após dia minha autoconfiança. Mas não há calculo que agüente 14km de dunas de 30 metros de altura num dia e cinco montanhas em outro. Vários quilômetros de areia fofa num dia e um terreno duro completamente cravejado de pequenas pedras no outro, tudo isto com a onipresente mochila nas costas. E tudo isto sem contar as noites mal dormidas, o calor extremamente seco durante o dia chegando a bater 58 graus, o frio de 8 graus durante a noite e as inevitáveis bolhas nos pés. Aliás, neste item em particular minha estratégia foi perfeita. Ao invés de levar dois pares de meias, usar um dentro do outro e tentar lava-los diariamente com um gole da água racionada, como fez a maioria dos competidores, eu levei sete pares. Diariamente eu passava o par que ficou por dentro para fora, colocava um par novo por dentro e o outro eu jogava fora. Com isto eu pude constatar que meus pés foram um dos poucos que não transformaram bolhas em horríveis feridas. Cada estágio que se iniciava era um dia completamente diferente do anterior. No primeiro dia havia a expectativa e o nervosismo do desconhecido. Apesar de insistentes pedidos do Lauter para que eu não ultrapassasse a barreira das 155 pulsações por minuto neste primeiro dia, eu não resisti quando vi todos andando pelas dunas nos últimos quilômetros deste estágio. Iniciei uma corrida suicida de 175 pulsações que me custou um intenso enjôo de mais de duas horas após chegar ao acampamento. Meu tempo foi de 4h 6min 3seg.
O segundo dia foi um tenebroso reflexo do dia anterior. Eu estava bem desgastado física e psicologicamente em função do arrependimento do excesso cometido, e isto me obrigou a poupar-me mais do que o necessário, tendo como conseqüência uma colocação abaixo do que eu podia conseguir. Em razão disto, a espiral psicológica foi aumentando para baixo. Meu tempo foi de 4h 32min 49seg.
O terceiro dia foi curioso e mostrou como a experiência vale mais do que tudo nesta competição. Apesar de minha recuperação física ter acontecido, o calor e o excesso de pequenas dunas somados ao temor do que seria o dia seguinte com seus 74km fez-me poupar energia como na véspera. Como resultado disto, minha colocação ficou aquém do que eu podia ter feito e isto novamente abalou o lado psicológico. Meu tempo foi 6h 56min 9seg.
Por incrível que pareça, o quarto estágio com seus 74km encontrou-me bem disposto e, apesar do fato de ter me perdido junto com outros 14 competidores do Japão, Itália e França por quase uma hora nas dunas no horário de escuridão total, isto não abalou minha confiança. Neste dia, para obrigar os competidores de elite a correrem um pouco no escuro, os 90 primeiros na classificação geral parcial largaram três horas após a nossa largada. O franco favorito Lahcen Ahansal não se fez de rogado e, mais uma vez, chegou antes do sol se por. Meu tempo foi de 15h 20min 32seg.
Após um dia livre aguardando os últimos corredores chegarem à tarde do dia seguinte, iniciou-se o 5.estágio. Os primeiros 14km eram compostos das mais altas dunas que eu já havia visto. Após 2h 52min caminhando pelas cristas das dunas, iniciei uma boa corrida nos 28km seguintes. Este dia foi o que mais bem disposto eu acordei. Meu tempo final foi 6h 25min 3seg.
O último estágio foi uma "brincadeira de criança". O objetivo era entrarmos na cidade de Erfould, a qual já havíamos visto suas luzes na noite anterior. Ao faltar 1km para o término já estávamos percorrendo as ruas da cidade dentro de um corredor humano de alegres marroquinos que nos saldavam a todo momento. Nesta hora eu lembrei e puxei minha bandeira brasileira que só iria usar nos últimos 50m. Minha surpresa foi total. Por 1km eu ouvia a ovação: "Brasil!!! Brasil!!! e em seguida: "Ronaldo!! Ronaldo!!". Meu tempo foi de 59mim 37seg.
Após o lanchinho oferecido na chegada, passei embaixo das cordas que separavam os competidores do resto do povo. e fui comprar o que tanto sonhei durante estes dias: uma Coca-Cola de 2litros e um pão marroquino maravilhoso. Neste momento eu já não estava mais curtindo a doce alegria da vitória mas sim pensando nos meus novos projetos...