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publicado em outubro de 2000 na revista de corridas Contra-Relógio
Ainda estava curtindo as conseqüências de ter sido o primeiro brasileiro a correr a Marathon des Sables no Deserto do Sahara, em abril de 99, respondendo dezenas de e-mails diários, ministrando palestras, colocando no ar o meu site, ... quando em julho recebi um e-mail de Cathy Tibbetts, uma das melhores ultramaratonistas americanas. Ela dizia simplesmente: "Carlos, que tal você ser o primeiro brasileiro a cruzar correndo o Grand Canyon?". Imediatamente eu viajei na idéia. Em seguida eu raciocinei que precisaria de um patrocinador. Conversando com o pessoal da Wöllner Outdoor recebi apoio incondicional e imediato, inclusive uma mochila foi feita especialmente para mim, com design próprio para minhas necessidades neste desafio.
O projeto era sair da margem sul (altitude 2212m) através da trilha South Kaibab, descer até o rio Colorado (altitude 731m), cruzar a Kaibab Suspension Bridge e, em seguida, subir a trilha North Kaibab até a margem norte (altitude 2515m). A distância total não impressionava muito (33,6km). Nossa grande inimiga seria a variação de altitude, além do trecho de 21km de subida. Tudo isto correndo.
Havia, porém, alguns detalhes técnicos que foram aparecendo em seguida. Naquela temporada ocorreu uma tempestade que inviabilizou grandes trechos da trilha que pretendíamos cruzar, a Kaibab. Esta trilha é o único caminho que atravessa completamente o Grand Canyon na direção norte-sul e estaria interditada para reconstrução até o meio de setembro. Isto seria um problema contornável se não houvesse a regra de que o lado norte sempre fica fechado para caminhadas a partir do meio de outubro, devido ao frio e à neve. E se ocorresse um atraso de apenas um mês em relação ao cronograma oficial, como eu estava acostumado aqui no hemisfério sul? Simplesmente não haveria tempo hábil de concretizar o projeto antes do fim do inverno. Como bom brasileiro, eu imaginei que isto não seria problema. "Se a trilha está fechada, pulamos o muro e vamos em frente". Mas esta idéia não teve a mínima possibilidade de ser ventilada para uma americana típica que segue todas as regras e padrões (certíssima, diga-se de passagem!).
De posse da informação que a trilha Kaibab reabriria em 15 de setembro e fecharia em 15 de outubro, decidimos marcar a travessia para 9 de outubro de 99. Com isso estaríamos preparados para um eventual atraso na liberação da trilha e, ao mesmo tempo, não atingiríamos o deadline de fechamento do parque. Uma das conseqüências deste problema na indecisão das datas, e em última análise, da incerteza de realizar a travessia nesta temporada, foi o atraso na divulgação do projeto para a mídia. Isto acabou acontecendo somente no início de setembro, quando as autoridades americanas garantiram a exatidão do cronograma de entrega da trilha. Uma única exceção a isto foi o articulista da Contra-Relógio, Derrick Marcus. Por ele ser uma "enciclopédia ambulante" sobre eventos internacionais, foi a primeira pessoa que me veio à cabeça para conseguir a confirmação da minha proposta: ser o primeiro brasileiro a cruzar correndo o Grand Canyon. Após um bate-papo e uma consulta a seus arquivos recebi aliviado a notícia positiva.
Paralelo a isto tudo meus preparadores físicos, Lauter Nogueira e Luciana Toscano, estavam querendo me estrangular. Eu estava em uma "entressafra" de treinamento, fazendo apenas o básico para manter a forma, quando apareci com esta idéia faltando apenas dois meses. O consolo era que não seria a primeira vez que os pegaria de surpresa (nem a última...).
Meus treinamentos não tiveram condições de adaptar-me à altitude. Como eu possuía compromissos profissionais durante a semana, treinava neste período apenas ao nível do mar, no Rio de Janeiro. Nos finais de semana eu corria em lugares mais altos. Iniciei em Nova Friburgo, a 800m de altitude, passei depois para Teresópolis, a menos de 1.000m de altitude e, finalmente, terminei os treinamentos no Parque Nacional de Itatiaia, a 2.300m. A maioria destes treinos foram feitos no mesmo dia da minha chegada ao local. Em alguns eu cheguei durante a noite, dormi e treinei na manhã seguinte. Nestas situações o corpo não faz nenhuma adaptação à altitude, acontecendo inclusive uma não percepção do fato nos treinos feitos em seguida à minha chegada. O objetivo pretendido por Lauter, neste caso, era checar minha performance nestas condições, pois a altitude seria a mesma do ponto de partida, South Rim.
Na prática, quando realmente cheguei ao Grand Canyon, a situação foi outra. Cheguei em uma quarta-feira à noite e corri no sábado seguinte. Em três dias de permanência em altitude seu corpo já está completamente sob os efeitos dela, sem contudo dar mostra de que iniciou sua adaptação, que ocorre entre oito e quatorze dias. Esta era a pior das três possibilidades neste caso. Uma delas seria correr imediatamente após a chegada, antes que os efeitos da altitude interferissem no meu desempenho. Creio que esta opção é muito perigosa em se tratando de um esforço muito longo. A outra, claro que melhor das três, era chegar duas semanas antes ao local, permitindo uma adaptação completa do corpo. Esta, porém, era inviável devido a compromissos profissionais.
De posse destes dados e com a estratégia definida, parti para o Grand Canyon em 4/10/99, segunda-feira. Depois de trocar de avião em New York e Denver, aterrizei na terça-feira (5/10) à noite em Farmington, New Mexico, cidade da Cathy. Depois de uma pizza "nutricionalmente balanceada" caí na cama, hospedado em sua casa. Lá eu pude conhecer a Violet, uma porca com mais de cem quilos que mora com ela, passeia por toda a casa e, enquanto Cathy navega na Internet, dorme aos seus pés candidamente.
No dia seguinte, de manhã, tomei o rumo do Grand Canyon em um carro alugado. Cathy só chegaria na sexta-feira (8/10) à noite, por força de compromissos. Eu parti antes com a intenção de conhecer o local e familiarizar-me com a região para que o deslumbramento que acomete todos que chegam ao Grand Canyon já houvesse diminuído no dia da travessia. Cathy não aparentava nenhuma preocupação pois, além de já conhecer o local, sua cidade situa-se dois mil metros acima do nível do mar, quase a altitude de South Rim. Isto significava uma completa adaptação ao perigo da altitude.
A quinta-feira (7/10) foi gasta em caminhadas por toda a borda sul, entrando e saindo de trilhas, tentando me ambientar ao local. As informações que eu havia colhido davam conta de que a totalidade das pessoas que vão lá chocam-se com a grandiosidade, chegando algumas a ficar abaladas emocionalmente por algum tempo. E este era o último problema que eu precisava naquele momento. Já me era suficiente o pouco tempo de treinamento e a altitude.
No final do dia, com a temperatura em torno de 12°C, fiz uma corrida tentando experimentar o calçado oferecido pela Hi-Tec, um dos melhores do mundo para trilhas. A filial do Brasil contactou uma das mais completas corredoras de aventura da atualidade, a Cathy Sassin, que é da Equipe Hi-Tec americana e foi a capitã da primeira equipe totalmente feminina a participar do Eco-Challenge, para que ela indicasse o melhor modelo de calçado para o que eu iria fazer. Como ele ainda não havia sido lançado por aqui, saiu da fábrica direto para o meu destino, sem vir para o Brasil. Isto me preocupou a ponto de me sentir obrigado a levar na bagagem um tênis, caso eu não me adaptasse a ele. Pois foi desnecessário. Após este primeiro treino já havia me decidido: com o tipo de terreno irregular que eu encontrei no início da trilha que pegaríamos, o calçado só podia ser o Hi-Tec, pois ele ajustava o pé perfeitamente, evitando torções laterais. No dia seguinte, sexta-feira (8/10), véspera da travessia, corri de manhã debaixo de um delicioso sol, bem diferente do frio da noite anterior. No fim da tarde a Cathy chegou. Conversamos, pegamos um jantar leve (ela tomou vinho...) e fomos descansar. O dia seguinte prometia!
Finalmente chegou o dia. Sábado, 9 de outubro de 99. Após um imenso café da manhã, checamos os equipamentos: barras energéticas, isotônico, chocolates, casaco, máquina fotográfica, ... Estava tudo ok. Então partimos para a trilha. Depois das despedidas de nossa equipe de apoio, Odette e Scott, e das últimas combinações, começamos a descer. Eram exatamente 8:00h.
Estar realizando mais este projeto era muito emocionante. Ser o primeiro brasileiro a cruzar correndo o maior cânion do mundo era uma responsabilidade que pesava nas costas. E naquele momento o que eu menos queria era levar mais peso... A descida estava sendo feita com muita facilidade. Corríamos e parávamos freqüentemente, sempre para tirar fotografias. Cathy já tinha uma reportagem vendida para a Trail Runner e não parava de fotografar. Mas o ambiente compensava cada parada. As imagens mudavam a cada curva da trilha South Kaibab e o sol ajudava muito no embelezamento de cada trecho que víamos ao longe neste paraíso terrestre. Além disto, a própria trilha possuía um desenho extremamente bonito e interessante, completamente construída em zig-zags para facilitar a locomoção em um terreno tão íngreme.
Muitas vezes encontramos pessoas que estavam descendo ou subindo com a intenção de acampar no ponto mais baixo do Grand Canyon, às margens do lendário Rio Colorado, visto que a caminhada até o rio é feita em dois dias e a subida em mais dois dias. Aliás, no início da trilha há um aviso oficial do Parque, alertando contra o perigo que a caminhada pelo Grand Canyon representava. Em uma tradicional trilha de montanhismo, ao atingirmos o ápice da subida, quando estamos cansados, a volta será em descida, sem muito esforço. Especificamente no Grand Canyon, acontece o oposto. Desce-se consumindo energia. Quando o cansaço aparece é o momento de iniciar uma longa subida. Esta é grande diferença, causadora da enorme quantidade de pedidos de resgate.
Pelo caminho, além dos vários caminhantes encontramos muitas mulas carregando turistas sem disposição de encarar a caminhada. E a descida não terminava nunca! Depois de uma hora e trinta minutos, finalmente, começamos a avistar o fundo do cânion e o Rio Colorado. Quanto mais nos aproximávamos do rio mais nos deslumbrávamos com o intenso verde de sua água. Uma atração à parte eram os grupos praticando rafting. Existem programas de até três semanas de prática, acampando em suas margens, sem sair de dentro do cânion neste período.
A travessia do Rio Colorado foi feita pela famosa ponte de ferro Kaibab Suspension Bridge. A partir daí margeamos um minúsculo afluente do Colorado por cerca de três quilômetros, quase na horizontal, com pequenas subidas e descidas de não mais de cinco metros de altura. Neste rio demos uma pequena parada para enchermos os cantis usando um sofisticadíssimo filtro que a Cathy levava consigo. Após este trecho iniciava a pior parte da empreitada: uma subida de vinte e um quilômetros com uma variação de altitude de 1.800 metros, fazendo-nos sair de 700 metros e chegar aos 2.500 metros de altitude.
Iniciamos bem a subida, com a pulsação sob controle e dentro de limites toleráveis. Um pequeno agravante foi o acúmulo de peso que passamos a levar em função da não existência de fontes de água a partir deste ponto. Após os primeiros três quilômetros de subida os efeitos do cansaço das primeiras horas, do sol, do ar abafado e, principalmente, do esforço em altitude, começaram a aparecer. Eu, que possuo uma freqüência basal em torno de 50 bpm, não conseguia pulsar menos que 130 bpm durante as paradas para descanso e hidratação, mesmo sentado! A partir deste ponto a diminuição da concentração de oxigênio no ar, que não produz diferenças práticas quando apenas caminhamos nesta altitude, realmente começou a influenciar fortemente a minha musculatura da perna, que é a que realmente estava fazendo o esforço. Periodicamente eu sentia câimbras em músculos que eu jamais havia sentido, mesmo nos piores momentos da Marathon des Sables, no Deserto do Sahara (edição de junho/99).
Deste ponto em diante só havia espaço na minha mente para uma discussão filosófico-matemática: como estava a cada momento a proporção "quanto já corri" / "quanto ainda falta correr". O grande consolo que tínhamos era a indescritível vista do lado norte. Eu via imagens que todos estes anos de viagens pelo mundo poucas vezes me surpreenderam tanto. As visões gigantescas do Grand Canyon visto de baixo e a sensação de insignificância perante a grandiosidade da natureza faziam-me esquecer momentaneamente daquele sofrimento físico. Toda as vezes que parávamos para beber água ou comer uma barra energética, Cathy ou eu fotografávamos alguma coisa. Diferentemente da descida do lado sul, quando paramos dezenas de vezes para tirar fotografias, agora poupávamos energia e concentração.
Uma situação que me incomodava um pouco era a Cathy, a cada dez minutos, dizendo quanto havíamos subido verticalmente desde quando estávamos a mais de 1.500 metros verticais abaixo do platô da chegada, o que significavam dezenas de quilômetros a correr. Creio que estava inaugurando seu altímetro... Finalmente, após algumas horas, Cathy deu uma boa notícia: estávamos apenas 400 metros verticais abaixo da chegada. Claro que isto significava ainda alguns quilômetros de corrida. Apesar disto, a notícia soou muito bem. Doce ilusão. Repentinamente, logo após uma das incontáveis curvas da trilha, iniciou-se uma íngreme descida que eu torci fervorosamente para ser de apenas alguns metros verticais. Infelizmente não era. A trilha continuou a descer indefinidamente como se estivéssemos realmente seguindo o caminho contrário. Não podia ser possível! Devíamos estar enganado. Tentei acreditar que havíamos tomado o caminho errado em alguma bifurcação, apesar de ter certeza que a trilha não possuía opções de caminho. Durante este tempo, que me pareceu infinito, eu ainda fui obrigado a ouvir os noticiários de Cathy: "descemos 100 metros de altitude!", "descemos 200 metros de altitude!",... Até que, algum tempo após passarmos a barreira dos 300 metros verticais quando eu já não tinha mais esperança daquilo acabar algum dia, a trilha "decidiu" ficar horizontal. Em seguida chegamos a uma ponte suspensa que atravessava para a outra face do cânion. Olhando para o alto do desfiladeiro pudemos ver a trilha finalmente serpenteando em direção ao topo. Começamos torcer para não sermos pegos em uma nova surpresa como esta. Depois de novos sofrimentos, semelhantes a todos já descritos, recuperamos toda a altitude perdida. Além disto, ganhamos uma vista mais deslumbrante ainda do que a da outra face, incluindo lindas flores coloridas pelo caminho.
Quando o altímetro de Cathy marcava uma diferença de apenas 200 metros verticais em relação ao ponto final, ouvimos meu nome ser chamado. Eu reconhecia, ou delirava, a voz de Odette da minha equipe de apoio. Em seguida identificamos Scott chamando Cathy. Parecia mentira, mas era verdade. Chegamos! Aquele sofrimento havia acabado! Depois da primeira curva da trilha olhamos para cima e os vimos. Que visão maravilhosa. Eles representavam a chegada. Com certeza estávamos a poucos metros do platô do lado norte.
A alegria durou pouco. Precisou eles repetirem a estória várias vezes e jurar outras tantas para que eu me convencesse que eles, com a melhor das boas intenções, ficaram tão preocupados conosco que decidiram descer um pouco a trilha e ver porque ainda não havíamos chegado, visto que não tínhamos noção do tempo-limite para este desafio. Pois bem. Resumindo, levamos mais 45 minutos subindo depois de termos nos relaxado com a certeza de já termos atingido nosso intento. É claro que esta última etapa foi feita totalmente andando, para todos subirmos juntos.
Ao final, o cronômetro marcava 9 horas e 51 minutos gastos correndo entre South Rim e North Rim e o freqüencímetro cardíaco acusava um gasto de 6.800 kcal. Uma boa e rápida maneira de emagrecer...