publicado em 15/02/01 na minha coluna no site de aventuras 360 Graus
Desde a minha mais tenra infância carrego um fascínio quase que exagerado pelo nosso planeta e suas diferentes regiões recheadas de peculiares e, às vezes estranhas, culturas. Minha curiosidade sempre incluiu neste rol, além disto, a estética física destes locais. Em resumo, o mundo, com todas as suas facetas, sempre atraiu magicamente minha atenção.
Lembro-me das horas gastas em cima de meu primeiro atlas geográfico, ganho naquela época em que as únicas preocupações que eu tinha eram ir à escola e brincar, não necessariamente nesta ordem. Reminiscências à parte, um filme que até hoje aparece em minha mente recursivamente é o antigo "As Aventuras do Dr. Dolittle", no qual o personagem-título decide procurar as duas metades de uma ilha que, graças a um cataclismo qualquer, parte-se ao meio, dividindo inclusive uma árvore longitudinalmente, e vaga sem rumo pelos mares. Como ele não tinha a menor idéia de onde começar a procura-las, usou o método não-ortodoxo de abrir um imenso atlas aleatoriamente em uma página e, de olhos fechados, marcou um ponto com um abridor de cartas. É claro que, ao final do filme, as duas partes foram achadas no ponto marcado no mapa e encaixadas, inclusive a tal árvore partida.
Pois bem. Mais de trinta anos depois de ter assistido ao filme apenas uma vez , ainda lembro nitidamente, com toda a riqueza de detalhes, do atlas do Dr. Dolittle. E, inconscientemente, já fiz, que eu me lembre, duas viagens pelo seu método: Chapada dos Guimarães e Deserto de Atacama. Ambas foram decididas na véspera da partida e, independente do que possa parecer à primeira vista, foram perfeitas e marcantes.
Minhas brincadeiras com meu irmão Marcos frequentemente nos levavam para regiões selvagens da Terra, direcionadas pelo meu velho primeiro atlas. E onde mais pousávamos era uma região que iria marcar-me indelevelmente para o resto de minha vida, o Deserto do Sahara. Lá andávamos montados em dromedários, saciávamos nossa sede e a deles em poços estrategicamente localizados em misteriosos oásis e fugíamos de quadrilhas de tuaregs através de imensas dunas. Durante a noite dormíamos em tendas árabes feitas com cadeiras e um lençol.
Curiosamente, mesmo forçando minha memória, não consigo ter certeza se brincávamos também nas regiões polares, pois tenho uma especial curiosidade por este outro extremo, o deserto de gelo. E qual não foi minha alegria quando soube que meu amigo Julio Fiadi havia conseguido chegar, depois de vários dias de sofrimento e quebras de limites físicos e psicológicos, ao Polo Sul.
Nos conhecemos em meados do ano passado quando eu o convidei a dar uma palestra no Rio de Janeiro sobre suas várias viagens de veleiro à Antártica. Ao final da ótima apresentação ainda brindou-nos com a estória sobre sua ida ao Polo Norte, concretizada pouco antes. Continuamos nos falando periodicamente através de e-mails. Tempos depois nos encontraríamos na Adventure Fair, onde falaríamos no mesmo dia no Adventure Congress. Fiquei triste quando soube lá que uma viagem o impediria de fazer sua apresentação. Consolei-me quando descobri, através de amigos em comum, que ele havia viajado novamente para a Antártica. Lá é o habitat natural dele, pensei. Qual não foi minha surpresa quando, pouco depois, fiquei conhecendo suas verdadeiras intenções nesta especial viagem à Antártica: atingir o Polo Sul. Com isto Julio Fiadi tornou-se o primeiro brasileiro a chegar aos dois polos da Terra caminhando.
Parabéns, Julio!