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publicado em dezembro de 1999 no site de aventuras 360 Graus
publicado em fevereiro de 2000 no site de aventuras EcoAventura
A idéia de ser o primeiro brasileiro a cruzar o Grand Canyon correndo surgiu durante uma conversa com a ultramaratonista americana Cathy Tibbetts, em fins de julho. Cathy, participante como eu da Marathon des Sables no deserto do Sahara, também possuía no currículo participações na Maratona do Everest e na ultramaratona do Vale da Morte, além de adventure races como The Beast of the East. Depois de vários e-mails estávamos decididos. Agora só faltava contar para Lauter Nogueira e Luciana Toscano, meus preparadores físicos, que eu tinha menos de dois meses para me preparar para mais esta. Caras feias à parte, começamos o treinamento em busca do tempo perdido...
Depois de 48 horas totalmente gastas entre aeroportos, vôos e estradas, cheguei 4.feira (6/10) à noite em Grand Canyon Village, base de onde partiria para a travessia, com o apoio da Wöllner Outdoor e da Hi-Tec.
Passei a 5. e a 6. feira (7 e 8/10) conhecendo o local, caminhando por entre as trilhas, ambientando-me física e psicologicamente, pois se a visão do canyon é aterradora para qualquer visitante, imagine para quem pretende cruza-lo correndo...
A temperatura durante o dia oscilava perto dos 14 graus C apesar do céu sem uma nuvem, caindo para 4 graus C à noite. E foi neste ambiente frio e horrivelmente seco que fiz o treinamento de 5.feira, quase às 22h. No dia seguinte corri em condições mais agradáveis, às 9h de uma linda manhã. Estes treinos faziam parte da estratégia de preparação física, finalizando minha aclimatação à altitude.
Finalmente, após um reforçado desjejum e os últimos acertos nos equipamentos, iniciamos, Cathy Tibbetts e eu, a travessia. O início aconteceu às 8h de sábado (9/10) em South Rim, a uma altitude de 2212m. A trilha Kaibab é bem demarcada pois, além de ser usada por caminhantes, existe um razoável trânsito de mulas que transportam os mais preguiçosos e fazem salvamentos de caminhantes não preparados.
A descida foi muito agradável porque a inclinação da trilha não chegava a comprometer demasiadamente o joelho. Paramos inúmeras vezes para documentar fotograficamente toda aquela beleza exposta em ângulos diferentes do visto pelo observador tradicional que vê o canyon do alto.
O fim da descida, após 10,1km e cerca de 2:15h, ocorreu no encontro do rio Colorado, a 731m de altitude. Neste ponto havíamos variado 1481m verticalmente. Após cruzarmos a Kaibab suspension bridge corremos cerca de 2km quase horizontalmente até começar uma tenebrosa e inesquecível subida de 21,5km, com uma variação de altitude de 1784m.
om o peso dos equipamentos a subida tornou-se muito mais cansativa, mas como fazer para não levar água, lanterna, alimentos energéticos e casaco? Simplesmente o risco seria incalculável em uma situação inesperada, como anoitecer antes de chegarmos ao fim ou o frio tornar-se um impeditivo em um local em que não havia condições de arrependimento. Por isto resignamo-nos a correr com alguns quilos às costas, coisa aliás que estávamos acostumados após os sete dias no Sahara, totalmente auto-suficientes.
Depois dos primeiros minutos em que tudo são flores (e fotos), a altitude começou a fazer efeito. Não estamos falando de uma caminhada pela cota 2000, onde qualquer pessoa com um mínimo de preparo físico não percebe o decréscimo de oxigênio no ar. Isto começa a acontecer em torno de 4000m. Mas aqui o assunto era mais sério: correr nesta altitude nem de longe lembrava uma caminhada. A necessidade de oxigênio fez-se presente não na forma de falta de ar, mas no cansaço e dores na musculatura impulsora da perna.
Durante algum tempo foi possível conviver com isto. Porém, quando já havia vencido um bom pedaço mas o que faltava parecia maior ainda, foi humanamente impossível fingir que nada estava acontecendo. A partir deste ponto os trechos de corrida eram intercalados com caminhadas e os pontos de parada para descanso começaram a ficar menos distantes. O que nos ajudava era a temperatura extremamente agradável à sombra.
Para piorar o fator psicológico, Cathy levou um altímetro de pulso. A cada 100 metros que vencíamos verticalmente ela comemorava, sem olhar o outro lado da moeda: ainda faltavam muitos outros cem metros a vencer. Quando estávamos a menos de 700m verticais da chegava (o que significavam vários quilômetros a correr!) a trilha deu uma guinada para baixo e não parou mais de descer. Cada metro descido era chorado mais do que quando foi subido, pois significava o dobro de sofrimento. Quando já não entendia mais porque descíamos tanto, chegou a explicação. O ponto final de nossa travessia não era na face que estávamos subindo, mas na face oposta. A trilha subia a primeira face apenas para contorna-la, desce-la em seguida e pegar uma ponte suspensa no nada que levava à outra face. Agora sim, deveríamos subir tudo novamente. Tem que haver muita força psicológica para aturar!...
Depois deste contratempo a subida realmente começou a parecer uma subida. Nada mais de descidas e nem de horizontais para descanso. A inclinação aumentou muito e isto acentuou bastante a sensação de peso da mochila (lembra das componentes X e Y das aulas de física?).
Finalmente, quando parecia que só terminaríamos a trilha no céu, ouvimos as abençoadas vozes de Odette e Scott, nossa equipe de apoio. Pronto! Chegamos! eles estão nos esperando no final da trilha... Doce ilusão. Receosos pelo desafio inusitado que nos propusemos, sem termos uma noção precisa de quanto tempo levaria esta aventura, eles começaram a descer a trilha para nos encontrar quando acharam que já era tempo de preocuparem-se. Pois bem, a agradável sensação de terminar este pesado desafio foi adiada por mais 45 intermináveis minutos, quando finalmente chegamos ao topo da trilha North Kaibab. O cronômetro marcava 9:52h e o freqüencímetro cardíaco indicava um gasto de 6.800 kcalorias. Estávamos a 2515m de altitude e havíamos atravessado 33,6 km de trilhas vendo locais surpreendentemente lindo e inesquecíveis.
Agora era descansar de mais esta e pensar na idéia que Cathy e eu tivemos para uma aventura no Alasca...