publicado em 06/06/01 na minha coluna no site de aventuras 360 Graus
Desta vez Alexandre Freitas "pegou pesado".O criador e diretor de prova da Expedição Mata Atlântica soube como ninguém, nos últimos quatro anos, caminhar, como dizem aquelas velhas (e, pelo visto, sempre atuais) frases de filosofia oriental, "colocando um pé após o outro".
Inicialmente em 98, ao lançar a primeira corrida de aventura no Brasil, Alexandre levou as equipes a competirem durante 3 dias no quintal de casa, no litoral norte de São Paulo. Digo quintal porque a maioria esmagadora das equipes brasileiras eram de São Paulo. Sim, nesta primeira edição já houve a presença de equipes estrangeiras, tendo ganho esta prova a forte equipe neozelandesa.
No ano seguinte a prova aumentou para cinco dias, saindo do quintal de casa e indo para o do vizinho. Desta vez a prova aconteceu no sul do Estado de São Paulo, no PETAR (Parque Estadual Turístico do Alto Ribeira), indo até o norte do Paraná. Na época eu havia acabado de cruzar o Grand Canyon correndo. Só tive tempo de chegar em casa para trocar as roupas da mochila e partir para São Paulo, indo trabalhar na Organização desta II EMA. Na reunião que tivemos antes, com o local da prova ainda em sigilo, Alexandre disse-me : "Vou coloca-lo em uma roubada! Você e o Vinicius (meu parceiro de todas as horas) irão para o PC9!". É claro que achei um exagero. Apenas uma frase saída de uma boca empolgada. Pois sim. Todos os que participaram diretamente da prova, competidores e equipes de apoio, sabem que ele estava certo.
Aquele local, durante mais de noventa horas, transformou-se em uma pequena cidade com os problemas de uma grande metrópole. Por um erro de cálculo, as equipes não levaram oito horas entre os PC5 e PC9 mas, no mínimo, trinta. Algumas chegaram com até sessenta horas. E a "cidade" inteira estava sem notícias, com as equipes de apoio proibidas de circularem fora dos limites do acampamento, tentavam periodicamente "linchar-nos" para descobrirmos onde cada equipe se encontrava. Ficamos, Vinicius e eu, quatro dias sem dormir, literalmente. E nem estávamos competindo! Mas a prova foi um sucesso. E, melhor ainda, foi ganha por uma equipe brasileira, tendo competido com a mesma equipe que havia ganho no ano anterior.
No ano seguinte a III EMA passou para o quintal de outro vizinho, o Rio de Janeiro. Ela aconteceu na região de Parati e Angra dos Reis, também em cinco dias. Desta vez, como eu havia previsto, montei uma equipe e fui sofrer também (artigo Eu e a EMA, aqui no 360 Graus). Por um desses acasos do destino a Simone Duarte foi atropelada enquanto treinava bike para a EMA, desfalcando-nos faltando apenas três semanas para a corrida. Como queríamos uma equipe genuinamente carioca, conseguimos a triatleta Renata Anchieta. Porém, no segundo dia de prova ela teve problemas com o joelho, impedindo-a de prosseguir. Com isto a equipe Wöllner Outdoor foi desclassificada mas não fomos, Giovanni e eu, impedidos de continuar. E foi o que fizemos. Completamos o percurso pelo simples prazer de sofrer mais um pouco. O que, aliás, é o que impulsiona todos em uma corrida como essa, estando ou não desclassificado...
E agora, provocando estupefação em todos os que acompanham a evolução da corrida de aventura no Brasil, Alexandre pula dos conhecidos quintais vizinhos para a Amazônia. Sim, Amazônia ! Com toda a força das imagens fortes que nos vêm à mente quando pensamos em uma competição de seis dias (!) neste local.
É claro que este pulo, que inviabilizará algumas equipes pelo alto custo do deslocamento de pessoal e equipamento, não aconteceu à toa. Este ano a EMA entrou, junto com outras seis provas espalhadas pelo mundo, para o recém-criado Adventure Race World Series. Junto com a EMA estão: Adrenalin Rush, Beast of the East, Hi-Tec Adventure Quest Africa, Raid the North Extreme , Southern Traverse e Subaru/NOC Mercilles Mountain Mêlée. E quem filmará será, nada mais nada menos, que a Discovery Channel, ex-Eco Challenge, que levará as imagens para mais de oitenta países. E Alexandre virá com tudo para colocar definitivamente a EMA no cenário internacional.
Resgate histórico
Quando fui convidado pelo Sammy W., editor de nossa tão querida Outdoor Magazine, a fazer um box para ser introduzido na reportagem sobre a EMA 99, que sairia em novembro de 99 mas nunca chegou às bancas, enviei-lhe um artigo bastante "sentimental". Agora, revendo-o para confirmar alguns dados para este artigo, senti vontade de torna-lo público, mesmo extemporaneamente:
Outubro de 99 - Pode-se não concordar com o pensamento do filósofo Friedrich Nietzsche em vários pontos, mas uma de suas ideias é inegável: a tese do Eterno Retorno.
Há um ano, nesta mesma revista Outdoor Magazine, lemos um artigo do Makoto sobre sua participação na EMA98 como apoio de uma das equipes competidoras. Após descrever os anseios pelos quais passa alguém nesta posição do jogo, ele conclui afirmando que no ano seguinte estaria do outro lado do balcão, passando de fornecedor a consumidor. Eu confesso que quando li achei um pouco exagerada a descrição de suas emoções. Ledo engano! Hoje me penitencio por não ter dado valor à palavra da experiência...
Tudo começou em julho quando o Alexandre Freitas, criador e diretor da EMA, entre um papo e outro convidou-me a montar uma equipe para participar da EMA99. Achando que não havia tempo hábil para esta empreitada, declinei o convite. "Então venha participar da Organização para ver como a coisa funciona e se empolgar para o ano que vem". A minha agenda para outubro incluía a travessia do Grand Canyon correndo, na condição de primeiro brasileiro nesta empreitada. Eu teria apenas três dias em casa entre um compromisso e outro para brincar com minha filhinha. Vamos lá, tudo pelo outdoor!
Acompanhando-me nesta estava Vinicius Meirelles, meu parceiro em montanhismo, escalada em rocha e mergulho. Pela nossa experiência reivindicamos uma vaguinha no posto de controle onde aconteceria o rapel de 125 metros de altura. É claro que tínhamos a segunda intenção (ou primeira?) de "rapelar" várias vezes, entre uma equipe e outra. O plano não deu certo. "Vou colocar vocês dois no PC mais problemático dos dezoito. O famigerado PC9!". Ele estava certo.
Após as equipes de apoio deixarem as bikes no AT2 (área de transição) deveriam rumar para o AT3, que era no nosso PC9. Isto aconteceria no início da tarde de 2.feira. O problema começou aí. A previsão de chegada da primeira equipe ao PC9 era para o fim da tarde de 3.feira. Isto só aconteceu com a equipe da Nova Zelândia. A maioria absoluta das equipes perdeu-se no trecho de trekking entre o PC3 e o PC4. Em função disto as previsões foram por água abaixo e a tensão no PC subiu à estratosfera. As equipes de apoio nos pressionavam exigindo notícias de onde estariam seus atletas. O local em que estávamos acampados era um vale que, além de não pegar sinal de rádio, em algumas ocasiões não foi possível nem usar o telefone por satélite que acompanhava algumas visitas que recebíamos. A solução foi, periodicamente, irmos à cidade mais próxima tentar telefonar em busca de informações.
As primeiras equipes começaram a chegar durante a madrugada de 4.feira. Os rostos que víamos fariam desanimar qualquer pessoa normal que não fosse fã de sofrimento físico e psicológico. No nosso caso só serviu para aumentar exponencialmente nosso nível de inveja. Como gostaríamos de estar chegando ali todo lanhado, sujo, com fome e sono!...
Da tarde de 2.feira à manhã de 5.feira praticamente não dormimos nem comemos. Éramos exigidos vinte e quatro horas por dia ininterruptamente pelas equipes ansiosas. Com isso deixamos queimar quase todas as refeições que tentamos fazer. Os rápidos banhos no rio só foram possíveis em dias alternados. Ao fecharmos o PC9 na 5.feira rumamos para outros PCs sempre em busca de trabalho. Como o povo diz: "Quem procura, acha". E nós achamos mais uma noite de pouco sono.
Ao final de tudo, assim como o Makoto no ano passado, ficamos com a sensação do dever cumprido. Agora queremos dar trabalho para outros! Se for possível alterar minha agenda de atividades para 2000, que já possui um compromisso em outubro, data provável da próxima EMA, vocês me verão todo lanhado, sujo, com fome e sono...