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Eu e a Expedição Mata Atlântica

Eu e a Expedição Mata Atlântica

Eu e a Expedição Mata Atlântica

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publicado em 17/11/00 na minha coluna no site de aventuras 360 Graus

Em julho do ano passado, pouco tempo após ter chegado do Marrocos, onde havia participado da Marathon des Sables, fui procurado pelo Alexandre Freitas, diretor de prova da EMA (Expedição Mata Atlântica), para que eu montasse uma equipe a fim de participar da EMA 99. Meus planos, porém, eram outros. Eu estava naquele momento em conversações com a ultramaratonista e corredora de aventura Catty Tibbetts visando fazer a travessia do Grand Canyon correndo, o que aconteceria quase na mesma data, inviabilizando qualquer tentativa de organizar uma equipe de cinco pessoas com equipamentos dos mais variados e uma logística séria e planejada, além de dedicar tempo aos treinamentos específicos. Desta impossibilidade temporal surgiu a contraproposta de que eu participaria do evento apenas ajudando na equipe de organização, como fiscal de posto de controle (PC).

De volta do Arizona, fiquei menos de uma semana em casa e parti para a EMA. Durante cinco dias, a maior parte dos quais trabalhando no fatídico PC9 (onde as equipes chegaram completamente esgotadas após mais de 24 horas completamente perdidas), eu vi equipes revezarem-se na liderança em função de sono e erros de navegação, vi pessoas chegarem aos seus limites físicos e psicológicos sem pensar em desistir, vi mulheres manterem suas equipes coesas depois de três noites sem dormir, vi bolhas acabarem com os sonhos de competidores e vi sonhos de competidores desprezarem horríveis bolhas. Em resumo, eu presenciei tudo o que normalmente acontece em uma extensa corrida de aventura: sofrimento e superação.

Em um artigo que escrevi logo em seguida para a antiga Outdoor Magazine, que seria publicado no número que nunca foi para as bancas, contei como foi duro estar do outro lado do balcão em uma competição destas, quando se é do tipo que necessita periodicamente de uma boa dose de dor e sofrimento para sentir-se plenamente feliz e realizado. E garanti, à luz da empolgação e da proximidade dos fatos, que estaria participando no ano seguinte como competidor. Os meses, porém, foram passando e esta idéia foi um pouco colocada de lado, apesar de revisitada periodicamente. Os planos de 2000 inicialmente não contemplavam este evento, mas variáveis incontroláveis do destino deram algumas reviravoltas que deixaram o mês de junho livre de projeções de curto e médio prazo. E exatamente neste período recebi um e-mail do Alexandre Freitas, novamente convidando-me a montar uma equipe. Desta vez para a EMA 2000.

Com o aval da canoísta oceânica Simone Duarte e do multiatleta Giovanni Mello (treinado por mim), mostramos o projeto à Wöllner Outdoor, que imediatamente deu-nos todo o apoio financeiro necessário a esta empreitada. Era a deixa para encararmos os treinamentos. Quatro meses e dois braços quebrados depois (Simone), partimos para a largada com uma nova equipe: Renata Anchieta, Giovanni Mello e eu, além de Alexandre de Abreu e Jessica no Apoio e a Dra. Christiane Rodrigues no suporte de nutrição.

Confiantes, chegamos na largada. E aí começaram a aparecer os erros próprios da inexperiência. Devido ao acidente com a Simone treinamos canoagem apenas UMA vez. E imaginamos que, apesar de não ser o caso ideal, conseguiríamos enfrentar quase de igual para igual as outras equipes competidoras. Além disto, concluímos que nossa experiência em orientação conseguida em anos de montanhismo nos colocaria em pé de igualdade com as equipes que possuiam especialistas no assunto, sem necessitarmos de treinamentos mais específicos. Sem falar na minha despreocupação, como capitão da equipe, em planejar estrategicamente nossas passagens pelas Áreas de Transição (AT), com o intuito de gastar o menor tempo possível nas mudanças de modalidades esportivas. Soma-se a isto tudo a falta de tempo prévio (neste caso não foi desconhecimento, pois aprendi muito no Sahara) de, calmamente, examinar cada equipamento levado e criar uma solução para diminuir seu peso (exemplo: tirar o filtro solar da embalagem e coloca-lo em saco zip; fazer o mesmo com o repelente; não deixar ser levado desodorante (!); vetar o enchimento total de camel backs em áreas de fartura de água, etc). Apesar disto tudo, além da desistência da Renata por um problema no joelho que a fez caminhar de muletas por uma semana, Giovanni e eu conseguimos completar a prova. Claro que não da maneira mais correta e menos custosa física e psicologicamente.

E o resumo de tudo isto? Uma corrida de aventura que está entre as cinco maiores do mundo, ao lado do Raid Galoises, Southern Traverse, Eco-Challenge e Elf Authentique Aventure, não é brincadeira de criança. Deve-se pensar duas vezes (três, talvez...) antes de iniciar-se no esporte via EMA. Creio que um bom caminho para adquirir-se experiência sejam as pequenas provas de 24 horas que estão pipocando durante o ano. Experimente!


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