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publicado em 01/05/01 na minha coluna no site de aventuras 360 Graus
Aos treze anos, em um acampamento escoteiro, presenciei uma curiosa cena. Uma patrulha (assim eram chamadas as equipes compostas por membros da mesma faixa etária) de escoteiros mais velhos havia decidido fazer daquele acampamento uma relaxante estadia em um resort. Dormiam tarde, acordavam tarde, não participavam das tarefas coletivas e o entorno de sua barraca parecia um depósito de lixo. Pois bem. Em uma certa manhã, após todos já terem se levantado e iniciado seus trabalhos do dia, um dos chefes escoteiros, dublê de Fuzileiro Naval, travou uma discussão com os citados escoteiros que nem se dignaram a levantar e abrir a barraca para dialogar. Ato contínuo, em um intempestivo arroubo militar, o chefe não pensou duas vezes e chutou o pau da barraca, que desabou sobre os preguiçosos escoteiros. Ah, sim, eles continuaram deitados...
Periodicamente algum amigo ou conhecido me coloca contra a parede, indagando sobre as dificuldades e os prazeres de chutar o pau da barraca, considerando que eu o fiz. Este assunto, deveras complexo, remete-me a uma canção cujo trecho diz: "... cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é...". Mas, afinal, o que é chutar o pau da barraca? O que faz uma mudança de rumo na vida ser classificada ou não como tal? Certamente nem todas caem nesta categoria, senão não haveria este brilho nos olhos de algumas pessoas que questionam o chute dos outros, já que seria considerado um fato tão corriqueiro, sequer merecedor de uma nota de pé-de-página num pasquim qualquer.
Sem muito esforço consigo lembrar-me de um analista de sistemas que largou o ar refrigerado de uma grande companhia de seguros de saúde para dar aulas de escalada, outro especialista em bancos de dados que foi para o interior criar galinhas e um empresário bem sucedido que partiu para o jornalismo de aventura. Aliás, tenho vários amigos que trabalham com aventura que desistiram de suas promissoras carreiras em escritório para arriscarem-se a sobreviver financeiramente de uma maneira não tão ortodoxa.
O importante a ser notado nos casos que conhecemos é que ninguém (ou quase ninguém) larga uma vida tradicional e segura para viver de brisa. O que ocorre realmente é que uma forte paixão nos puxa, auxiliada por uma também forte repulsão a algo que não nos oferece a felicidade completa, somente dinheiro. E para estas pessoas, realmente, dinheiro não trás felicidade. No caso geral de quem chuta o pau da barraca o dinheiro é apenas o meio, nunca o fim. Ele possibilita a sobrevivência, para que o prazer de uma vida plena tenha condições de ser usufruido.
No meu caso específico, troquei vários anos de experiência em informática por uma vida que durante alguns anos foi vivida em paralelo, sem a devida prioridade. Agora, como preparador físico em tempo integral, tenho certeza que estou levando satisfação para muito mais pessoas do que antes. Inclusive com meu método de treinamento à distância estou multiplicando esta possibilidade de ajudar pessoas e espalhar felicidade para quem nem conheço pessoalmente. E isto não tem preço!
Um amigo meu, economista de um grande banco, quer dar seu chute e ir morar em um barco por alguns anos, viajando pelo mundo com a família. Financeiramente pretende sobreviver escrevendo artigos, vendendo fotos de lugares aprazíveis, fazendo passeios de barco nas localidades onde aportar. Alguém se habilita a patrociná-lo?...