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Uma Carona na Expedição Alheia

Uma Carona na Expedição Alheia

Uma Carona na Expedição Alheia

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publicado em 18/01/01 na minha coluna no site de aventuras 360 Graus

A partir de um descontraído bate-papo durante a Adventure Fair com o casal de montanhistas Paulo e Helena Coelho, que dispensa apresentações, concretizou-se a oportunidade que eu aguardava há bastante tempo de matar minha curiosidade sobre os mistérios da alta-montanha e da aclimatação. Eles estavam programando uma expedição para subir o Aconcágua no período natalino.

Eu sempre fui eclético nas minhas atividades físicas. Já fiz karatê, judô, aikidô, capoeira, competi nadando em mar aberto, voei de paraglide na França, cruzei o Grand Canyon correndo, pulei de bungee jump na Costa Rica, peguei carona em ultraleve nos céus de Fortaleza, corri no Deserto do Sahara, fiz escalada em rocha, mergulhei em apnéia na Chapada Diamantina, mergulhei com cilindros no Caribe, fiz corrida de aventura na Mata Atlântica, fiz trekking no Deserto de Atacama e no Deserto Patagônico, subi montanhas correndo e atualmente estou planejando fazer um curso de paraquedismo. Mas a grande dúvida sobre o comportamento e os limites do corpo humano em grandes altitudes nunca me saiu da cabeça e eu não podia perder a chance de subir a mais alta montanha do globo, fora do Himalaia, com dois montanhistas com quase vinte anos de experiência em alta-montanha.

Convencidos a me convidarem a fazer parte da expedição, partimos de São Paulo na manhã de 26/12. O projeto deles era chegar ao cume pela via normal na manhã do primeiro dia do novo milênio e alguns dias depois fazer o cume novamente pela via de gelo Polacos. O meu planejamento, que sempre confiei na minha capacidade de endurance, era acompanhá-los em suas atividades de aclimatação e tentar fazer o cume pela via normal. Mas a situação não era tão fácil quanto parecia. O processo de adaptação à altitude do Paulo e da Helena não é feito para alguém que está debutando em alta-montanha. O esforço que eu fiz para acompanhá-los nos quatro primeiros dias foi algo poucas vezes experimentado por mim. Eu fazia as ascensões sentindo-me em "câmera lenta". Apesar das ordens para as pernas andarem mais rápido elas não me davam a menor bola. Enquanto isto, Paulo e Helena pareciam que estavam indo ao quintal colher alface e tomate para fazer uma suculenta salada.

Para se ter uma idéia de como foram as atividades e os sofrimentos:

26/12 - Chegamos de carro a Puente del Inca (2.720m) e dormimos em um galpão.

27/12 - Caminhamos até o fim de Playa Ancha (3.600m).

28/12 - Chegamos em Plaza de Mulas (4.265m), acampamento-base, no final da tarde.

29/12 - De manhã, subimos até Plaza Canadá (4.910m); voltamos para dormir em Plaza de Mulas.

30/12 - Pela manhã, os dois subiram até Nido de Cóndores (5.380m) e eu até Cambio Pendiente (5.200m); voltamos para dormir em Plaza de Mulas.

31/12 - Paulo e Helena partiram definitivamente para Nido de Cóndores (5.380m) e montaram o acampamento-avançado; eu fiquei mais um dia no acampamento-base tentando descansar do excesso dos quatro primeiros dias.

01/01 - Paulo e Helena tentaram chegar ao cume (6.962m) mas foram impedidos pelo mau tempo; eu subi até Plaza Canadá (4.910m) e dormi lá.

02/01 - Paulo e Helena chegaram ao cume pela via normal; eu cheguei em Nido de Cóndores (5.380m).

03/01 - Subi até 5.500m e me senti muito lento; Paulo e Helena planejaram partir durante a madrugada para a via de gelo Polacos (objetivo maior da expedição); eu decidi esperar mais um dia para tentar subir ao cume.

04/01 - Ao acordar, me surpreendi com a presença no acampamento de Paulo e Helena; eles me responderam que não fizeram a via Polacos para me fazer companhia; eu fiz mais uma subida a 5.500m e achei melhor não ir ao cume no dia seguinte devido ao meu cansaço; eles decidiram partir na próxima madrugada para a via Polacos e eu planejei descer no dia seguinte para o acampamento-base a fim de esperá-los.

05/01 - Ao acordar, me surpreendi com a presença no acampamento de Paulo e Helena; eles me responderam que não fizeram a via Polacos para me fazer companhia; descemos para o acampamento-base lentamente, devido a meu cansaço.

06/01 - Por aconselhamento do médico-plantonista do acampamento-base, decidi descer o último trecho em uma mula, tentando me poupar; Paulo e Helena fizeram a descida final a pé e nos encontramos na entrada do Parque ao final do dia.

As conclusões desta experiência que passei ainda estão sendo pensadas e repensadas. Mas algumas já estão prontas:

1) A aclimatação à altitude é um assunto que deve ser levado a sério até às últimas conseqüências. Ela não é substituída simplesmente por um bom preparo físico.

2) Cada indivíduo deve seguir seu ritmo de caminhada e permanência nos acampamentos. Não tem sentido fazer aclimatações em grupo, como eu tive oportunidade de ver um grupo de dez pessoas subindo, a partir do acampamento-base, todas na mesma passada.

3) Neste momento já estou com saudades de lá. Voltarei em breve.


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