Gringos faturam a Expedição Mata Atlântica
05/11/00 - Eduardo "Formiga" Abranches


Sábado, 21 de outubro, primeiro dia de Expedição Mata Atlântica. Cheguei meio perdido, por volta das 13 h no acampamento montado em Itamambuca, litoral norte de São Paulo. O tempo tava ruim pra caramba e os testes de vertical, natação, rafting, canoagem e colete salva-vidas estavam indo devagar. A equipe 02 - Timberland Lontra Radical, teve problemas com a prova de rafting e só conseguiu virar e desvirar o bote depois da terceira tentativa. Já um dos integrantes da equipe 04 - Hombres de Mais, não apareceu no sábado pois estava voltando de um Campeonato de Iron Man (a galera pega pesado). A noite, Alexandre Freitas, organizador da prova, entregou a uma escola local todo o material didático arrecadado através dos projetos sociais, elaborados pelas equipes participantes.

Domingão. O dia começou com a apresentação do Major Ferraz. Ele ressaltou a importância da preservação da Mata Atlântica, apresentou os equipamentos utilizados em caso de resgate, como o GPS e falou sobre o sistema de rastreamento comando por satélite. Depois foi a vez do Dr. Clemar, médico experiente, com algumas provas de aventura e rallys em seu currículo. Ele destacou os perigos da mata e do mar e ressaltou o respeito que devemos ter por eles. Logo em seguida, falou sobre alguns remédios no caso de diarréia e outras coisitas mais. Ele também falou da importância do alongamento durante a prova, "pois os músculos sofrem uma agressão muito violenta".

Dando sequência nas palestras, Rosita (coordenadora de escalada) explicou a parte de cordas. Disse que seria dividida em 3 etapas: um rapel com inclinação positiva de aproximadamente 90 metros; o jumar (modalidade na qual os competidores têm que subir pela corda) e por último, a tirolesa (que é uma corda presa em dois pontos) com extensão de 170 m, altura de 400 m e um desnível de 60 m. Pupo, responsável pela parte de canoagem e rafting da prova, também teve sua vez. Ele falou sobre os PC´s (postos de controle) espalhados pelos rios e corredeiras e sobre os equipamentos de segurança. Lá pelas 16:30 h, fomos pra uma praia chamada Tarituba, litoral do RJ. Com a barraca montada e tudo pronto, estava na hora de começar a trampar!

Até então, eu estava trabalhando como fotógrafo da própria EMA, fazendo a cobertura para a RALLYBRASIL. Mas devido a uma baixa nos PC's, a organização precisou de alguém e lá estava eu, acompanhando o pessoal de vertical: Humberto, Fafá, Nativo, Ricardinho, Rosita, Brasil e Leonardo Persi, que foi meu parceiro de PC. Ficamos no 8 (rapel) e no 21 (jumar). O PC 8 ficava entre a praia do Sono e dos Antigos, e o PC 21 ficava na Grande Cachoeira, a uns 10 Km de São Luis do Paraitinga. Dei uma olhada nas equipes de apoio e percebi que não havia muita diferença de estrutura entre elas: a grande maioria possuía carros como Land Rover, Pajero, Nissan, entre outros. Realmente, é muita grana e dedicação envolvida, tanto das equipes, quanto da organização.

Segunda, 23 de outubro. A largada foi dada às 7 horas e 2 minutos, na praia de Tarituba. Na primeira etapa rolou a canoagem, passando pelo PC 2 até chegar ao PC 3 / AT 1, onde os competidores deixavam suas canoas e começavam o trekking. As 9:34 h, saímos de Tarituba e fomos pro AT 1 (Area de Transição), que ficava na reserva dos índios Cairuçu, na praia de Parati Mirim. A equipe 02 - Quasar, que estava defendendo o título do ano passado, chegou em quinto lugar. A 22 - TAM, com Waldemar Niclevicz, chegou entre os últimos, após virar a canoa várias vezes. A 30 - Wollner Outdoor, ficou com o último lugar. A triatleta Renata Anchieta não passou bem e vomitou algumas vezes. Falou que o café da manhã não tinha descido legal. As 17 h a gente começou a fazer a trilha pra praia do Sono. Atravessamos a praia e começamos uma outra trilha. Curta, porém mais inclinada. Naquela altura, a equipe 02 - Lontra Radical estava em primeiro, seguida pela 01 - Quasar. A previsão era do primeiro colocado passar pelo PC 8 entre 3 e 5 da manhã. O PC 8 ficava na parte de cima do rapel, enquanto o PC 9 ficava na parte debaixo.

Terça-feira. A equipe 01 - Quasar, foi a primeira a chegar no PC 8. Said, Rafael e Gabriela optaram por parar, jantar e dormir umas quatro horas, entre o PC 6 e o 7, pois estavam cansados e com muita fome. Não se importaram com as três equipes que estavam na frente, pois sabiam que uma hora elas teriam que parar pra descansar. A estratégia acabou dando certo! Quase 10 da manhã e só tinham passado quatro equipes entre o PC 8 e 9 - Quasar, Epinephrine, Lontra Radical e Brasil 500 anos. Era mais ou menos 18 h, quando eu e o Júlio fomos buscar água e comida. Descemos pela trilha, atravessamos a praia do Sono e compramos alguns sacos de macarrão. Encontramos então a competidora feminina da equipe ZIP NET. Ela estava perdida, não sabia onde estavam seus companheiros. Estava abatida, cansada e com muita fome. De repente, a martelada: tínhamos esquecido a lanterna! Atravessamos a praia, encontramos a entrada da trilha e depois continuamos no escuro total. Lua nova, litros d'água, panela de macarrão e nenhuma luz. O jeito foi usar a intuição. A mata ficava cada vez mais fechada. A trilha quase não existia, quando chegamos num ponto de referência. Uma pedra enorme no meio da trilha. Sabíamos que estávamos no caminho certo, tentamos continuar mas a mata nos impossibilitou. Decidimos parar e dormir, continuaríamos depois que o sol nascesse.

Quarta, 25 de outubro. Levantamos as 8:30 h e encontramos a Renatinha, equipe 30 - Wollner Outdoor. Ela falou que estava muito cansada e precisava treinar pro Troféu Brasil de Triathlon. Provavelmente, não esperava que a prova fosse tão difícil. Com isso, o Sposito e o Giovanni continuaram sem ela. Arrumamos as coisas e deixamos a praia do Sono, sentido o PC 18, no Núcleo Santa Virgínia. Chegando lá, nos reunimos (equipe de PC e fiscais) e fomos para a Cachoeira Grande, que seria o PC 21. Apesar do cansaço, fomos dormir as 2 da manhã (montamos as barracas, rangamos, para enfim nos deitar).

Quinta-feira brava. Acordamos e o Fafá (técnico de vertical que nos acompanhava) estava passando mal. Depois, foi a vez do Leonardo. Alguma coisa balançou a galera. O Alexandre Freitas apareceu e nos comunicou que o PC 21 tinha mudado de lugar. Seria agora na ponte do rio Paraibuna, pois se continuasse ali, só três equipes teriam condições de jumariar, devido ao ritmo apertado da prova. Juntamos as tralhas e nos dirigimos à divisa de São Luis do Paraitinga com Natividade da Serra. ás 17:26 h a equipe 13 - Epinephrine chegou no PC 21. A névoa era densa e gelada. Quando a noite chegou, algumas equipes acabaram desistindo. Entre elas, a Brasil 500 anos e a Pedal Power.

Quando amanheceu (sexta), foi a vez da equipe 22 - TAM, deixar a prova. Assim como as meninas da equipe 24 - Atenah, o pessoal da equipe 21 - Iancatu, 16 - Total Run e da equipe 11 - Santa Fé. Após cinco dias de competição exaustiva, restavam 9 equipes participando da categoria principal, a Expedição: Epinephrine, Lontra Radical, Adventure Gear, Grilos Iancatu, Quasar, HAT, Supllex, International Team e a GMAC. Na sexta à noite, as equipes que desistiram já estavam em Itamambuca. A equipe campeã Epinephrine, chegou na madrugada de sábado.


O QUE ROLOU NA EMA:

A Diana, competidora da equipe 5 - Insieme, quebrou o cotovelo em dois lugares. Ela sofreu um capote de bike, após dar um totózinho num caminhão na BR101.

Um competidor da equipe 33 - Grilos Iancatú, chegou no PC 21 dizendo: "não há palavras para descrever a frustração e o cansaço que estamos sentindo. A prova está muito puxada, tanto física quanto psicologicamente".

Os PC's 10 e 12 eram no mesmo lugar, com isso, algumas equipes decidiram não passar no PC 11, que era um PC opcional. A vantagem: os competidores não precisavam andar 8 horas pra ir até o 11, e mais 8 pra voltar até o 12. A desvantagem: não encontrar a equipe de apoio nas próximas 30 horas!

SPOSITO - "Tinha uns mosquitos lá que eu nunca tinha visto. Mosquito que atacava o couro cabeludo. Engraçado, que nós pensávamos que era sal ou areia, já que tínhamos acabado de chegar da natação. Ficou a noite inteira coçando. Aí a gente colocava Off (repelente) pelo corpo e ninguém botava na cabeça. De manhã quando conversamos, vimos que os três tinham coceira na cabeça, aí descobrimos que era mosquito. Mosquito que ataca o couro".

GIOVANNI - "Na verdade a gente não teve nenhuma estratégia montada em relação a transição de trechos. Isso porque no dia que nós pegamos o mapa, nós precisamos fazer um novo teste de rafting e perdemos muito tempo. Marcamos os PC´s mas não planejamos o que iríamos precisar em cada área de transição. Era tudo improvisado na hora".

SPOSITO - "Tinham situações onde a mochila poderia ficar mais leve. Cada 10 g que você está tirando, são 10 g que você está carregando durante 450 km".

GIOVANNI - "´é preciso pouco conforto, para não carregar mais peso. Vai passar frio? Vai. Vai Ter mosquito? Aguenta o mosquito. é melhor não levar, do que carregar peso demais. Mais tarde, você vai encontrar uma área de transição para se remediar".


RALLYBRASIL - A SAíDA DA RENATA, A PARTE FíSICA E MENTAL, QUAL O BALANçO GERAL DA PROVA?

SPOSITO - Apesar de ter trabalhado na organização do EMA 99 e este ano na Litoral 2000, mais o que eu acompanho e falo com as pessoas que praticam corridas de aventura, isso me dava a impressão que eu tinha algum conhecimento. Participando, nós vimos que nosso maior problema foi a inexperiência. Acho que a falta de conhecimento em todas as áreas: parte de organização prévia, a compra do equipamento certo, alimentação, o treinamento da equipe de apoio, o treinamento em cada esporte, em cada modalidade. Nós treinamos bike, mas não treinamos levar a bike nas costas, no ombro. Na costerira, pensamos que fóssemos andar pelas pedras, não andar dentro do mar, por todo aquele tempo. Em razão disso, a gente não estava com saco estanque. Por sorte, nós tínhos um sanito envolvento a parte interna da mochila e funcionou. Mas pura sorte de momento, poderíamos ter molhado todos os equipamentos. Hoje nós temos consciência, que viemos para cá sem experiência.

RALLYBRASIL - ONDE VOCêS SE SURPREENDERAM, ACHARAM QUE FORAM BEM?

SPOSITO - Durante os trechos de orientação o Giovanni foi se adaptando as circunstâncias e foi aprendendo com a prática, logo nas primeiras horas. Então, no final do primeiro dia, ele estava muito bom em navegação. O primeiro dia serviu prá se aprender muito de navegação. Arrumar os conhecimentos que estavam soltos na cabeça. Como trekking a gente têm experiência, a parte física não era problema. Em orientação a gente foi razoavelmente legal.

RALLYBRASIL - QUAL A PRóXIMA PROVA? A EQUIPE VAI SER MANTIDA?

SPOSITO - Com certeza na EMA do ano que vem a gente vai estar presente. Mas eu não sei o que a Renata está pretendendo. Ela não tinha experiência em corridas de aventura e a gente ainda não parou para conversar.

RALLYBRASIL - VOCê HAVIA DITO QUE O ATLETA IDEAL ERA UM TRIATLETA MONTANHISTA. VOCê AINDA PENSA ASSIM?

SPOSITO - Eu pensava isso até o começo da semana. Como o Uriel (Santiago) falou, o atleta ideal para corrida de aventura, é o corredor de aventura. é o cara que está se preparando psicologicamente, está preparado para a dor muscular, a dor da fome. O Uriel passou por isso na Patagônia, nós passamos por isso aqui na EMA. Nós perdemos o sanduiche na costeira, pensamos que a embalagem estava lacrada, mas entrou água e ficamos sem comer direito por três dias. Na quinta feira nós encontramos um sítio e comemos banana com farinha. A nível esportivo, o corredor de aventura precisa não só do preparo aeróbio, mas ter muita força.


Os atletas Carlos Sposito, Renata Anchieta e Giovanni Mello tem o patrocínio da WOLLNER OUTDOOR e o apoio da RALLYBRASIL. Agradecimento especial ao Alexandre de Abreu e a Jéssica "Venezuelana".

Formiga
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