O atleta ultramaratonista
e preparador físico Carlos Sposito volta a escrever para
o Webventure com dicas para melhorar o desempenho em
provas de aventura. No texto abaixo, ele fala sobre o
que acontece com o corpo humano quando fazemos
exercícios.
Para nosso organismo, uma atividade física é sempre
um esforço físico, não importa se foi previamente
planejado e calculado por um personal trainer, como uma
corrida matinal na calçada da praia, ou se foi
improvisado como uma corrida atrás do ônibus quando
estamos atrasados para o trabalho. Em qualquer uma
dessas situações, passamos por um estresse físico. Em
outras palavras, exigimos de nosso organismo um esforço
maior do que o usualmente solicitado na maior parte do
tempo em nosso dia-a-dia.
Apesar de parecer um contra-senso, durante nossa
pedalada ou remada diária nós estamos apenas
“maltratando” nossos músculos e articulações,
sobrecarregando nosso coração e nossos pulmões, bem
distante da idéia que temos sobre os benefícios para a
saúde que um bom esforço físico pode trazer.
Calma! Antes de você preparar um e-mail me xingando,
espere mais um pouco e tente ler até o final. Depois
disso, se você achar que ainda tem motivos, pode
escrever.
Graças a um delicado e longo processo evolutivo,
nosso organismo aprendeu a se adaptar às variações que o
ambiente exigia. Desta maneira, um morador de altitude
terá mais hemoglobina em seu sangue visando compensar a
diminuição do oxigênio no ar atmosférico (apesar da
proporção entre os gases permanecer constante) por meio
de um maior carregamento deste gás para as células. Do
mesmo modo, existe um esforço do nosso corpo em
adaptar-se aos “exageros” que impomos a ele quando nos
estressamos fisicamente. Se pudéssemos ouvir o que o
nosso metabolismo “pensa”, creio que seria algo assim:
1ª situação – durante a corrida (adaptações agudas):
“Caramba! Esse meu dono está exagerando! Não estou
conseguindo levar oxigênio suficiente para as células
musculares das pernas. Vou tentar abrir a passagem
daqueles capilares sanguíneos que estavam de bobeira sem
funcionamento, na tentativa de irrigar esta região que
está pedindo ‘arrego’”!
2ª situação – logo após a corrida (adaptações
crônicas): “Ufa! Dessa eu escapei! Mas, com certeza, não
quero passar por isso novamente. Vou pensar em algo que
eu melhore no meu organismo para ficar preparado para
outra ‘ignorância’ dessas que meu dono queira fazer
comigo. Acho que vou aumentar o número de mitocôndrias
[nota do tradutor: organela responsável pela geração de
energia celular] nas células musculares das pernas e
também vou ampliar o volume do ventrículo esquerdo do
meu coração para tentar aperfeiçoar a eficiência dos
batimentos cardíacos, levando mais sangue de cada vez.
Há! Há! Há! Quero ver se ele me coloca novamente nessa
furada”!
Com o passar de algumas semanas, as adaptações
crônicas descritas acima, além de muitas outras, chegam
ao estado-da-arte, permitindo o organismo fazer aquela
atividade física lá de trás, sem o esforço e o estresse
sentido naquela época. Pronto! Você agora está adaptado
para fazer esta atividade neste nível de intensidade que
treinou durante este tempo.
Neste ponto você diria: “Tá bom! Mas eu ainda não
estou satisfeito com a minha velocidade. Quero melhorar
mais!” Então não tem jeito. Você tem que sair dessa zona
de conforto que atingiu e começar o estresse todo
novamente!
O segredo de hoje: o treinamento desportivo consiste
em nunca deixar seu organismo se acomodar e acostumar a
um patamar de esforço, variando sempre os estímulos e o
nível de estresse.
Carlos Sposito é colunista do Webventure, preparador
físico e atleta de aventuras e desafios, treina atletas
e iniciantes sedentários no Brasil inteiro, por meio de
planilhas personalizadas enviadas via e-mail. Foi o
primeiro brasileiro a correr a pé a Marathon des Sables
no Deserto do Sahara, a cruzar correndo o Grand Canyon,
a correr no Deserto de Mojave, a dar a volta a pé
correndo “non stop” na Ilha Grande e dar a volta a pé
correndo “non stop” na Floresta da Tijuca. Veja mais em
www.sposito.com.br
Especialista em Fisiologia do Exercício pela UGF/RJ,
Sposito foi obrigado a dar um tempo nos desafios por
culpa do mestrado em Engenharia Biomédica que está
cursando na COPPE/UFRJ. Mas ele garante que este ano tem
novidades!
Esta é uma coluna mensal e reflete a opinião do seu
autor, não tendo necessariamente nenhuma associação com
a filosofia do Webventure.